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“‘Posso contar-lhe uma história, Rick?”, pergunta Ilsa; E acrescenta: ‘Ainda não sei o final.’ Rick responde: ‘Claro, conte. Talvez contando encontre algum.'”
Obra: Aos Ombros de Gigantes. Sobre algumas formas de imperfeição na arte. Lições em La Milanesiana 2001-2015. Gradiva, 2018, Lisboa. Tradução de Eliana Aguiar. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).
Quando ingressei em um desses streams, Casablanca foi a primeira pesquisa. Ganhei o dia ao encontrá-lo e na medida em que surgiam as cenas em que Rick e Ilsa começavam o romance, voltei a novembro de 1995 quando assisti a este cult pela primeira vez, por uma ocasião insólita.
Não tinha completado cinco anos no ramo de sistemas para contabilidade quando um senhor, que tinha feito um curso de programação em rede Novell comigo me recomendou uma implantação em um escritório, cujo principal cliente era um grupo de teatro que funcionava no mesmo prédio na Conde da Boa Vista.
Era um sábado pela manhã quando o proprietário do grupo chegou no escritório, eu estava terminando e deixei transparecer o meu interesse por teatro e arte em geral. Foi por onde nossa conversa se alongou quando então veio o convite:
– Estamos com um VHS de Casablanca, você não quer vir conosco?
Guardei os disquetes de 3.1/2 na mala e desci alguns andares até uma sala onde um grupo de alunos, atores e colaboradores do grupo conversavam. O ambiente era leve, bastante animado; senti-me acolhido. Servido um lanche, então todos se acomodaram para assistir ao filme.
Cada cena me deixou mais impressionado com o romance de Rick e Ilsa sob a sombra de Victor. Ainda perplexo após a exibição, escutei de quem me convidou:
– Um exemplo de obra-prima indiferente a padrões estéticos.
Não entendi, tinha apenas 20 anos, apesar de apreciador de arte, carecia de noção em termos técnicos. Em 2018 quando li o comentário de Umberto Eco sobre a obra não estar alinhada com a estética em meio a “um amontoado de cenas sensacionais reunidas de maneira pouco plausível” (p. 311), pensei em quanto a arte, incluindo seus aspectos de tecnicidade, caracteriza-se por desvencilhar de padrões por seu espírito que é inovador por excelência.
O trecho (p. 312) que lembra uma “epítome” da obra, reproduzido por Umberto Eco, tornou-se para mim inesquecível. Afirma o semiólogo que “o filme foi escrito à medida a que se rodava. Até o último momento, nem Michael Curtiz sabia se Ilsa partiria com Rick ou com Victor, e os sorrisos misteriosos de Ingrid Bergman devem-se ao facto de ter gravado as cenas sem saber qual dos dois homens amava realmente” (p. 313).
Em um “drama de improviso”, os atores colocaram tudo o que podiam dentro dele, segue Umberto Eco, sem as limitações que poderiam torná-lo kitsch. Casablanca é cult movie pela riqueza de arquétipos a lembrar que não nos limitamos a uma vida “real” dentro de um roteiro muito previsível, assim entendo a análise do medievalista. Há imprevisibilidades muito além de nossa visão tão limitada dos acontecimentos, penso, e torno ao comentário, resultando em um filme onde “as Potências da Narratividade desdobram-se no estado bruto, sem que a arte intervenha para as disciplinar” (p. 315).
Sempre que assisto a Casablanca, passo pela mesma experiência que tive naquele início de tarde em novembro de 1995, ao apreciar um cinema envolvente, de humanidade escancarada em clichês e possibilidades que se amalgamam no mundo da vida.
2 Replies to “26/12/2025 08h00 Aos Ombros de Gigantes. Sobre algumas formas de imperfeição na arte”