Imagem: BBC

Noam Chomsky

Os princípios norteadores foram bem expressos por Henry Kissinger em seu discurso ‘Ano da Europa’ , em 1973. O sistema mundial, alertou ele, deveria basear-se no reconhecimento de que ‘os Estados Unidos têm interesses e responsabilidades globais ‘, enquanto seus aliados possuem apenas ‘interesses regionais’.”

Obra: O Império Americano: Hegemonia ou Sobrevivência. Capítulo 6. Os Dilemas do Domínio. Campus/Elsevier, 2004, Rio de janeiro. Tradução de Regina Lyra. De Avram Noam Chomsky (EUA/Pensilvânia/Filadélfia, 1928).

Quando me volto ao histórico da política externa dos Estados Unidos, vejo o reflexo de um país movido a guerras. Antes, na sua fundação reside a imensidão de sangue inocente, a começar do genocídio de indígenas, o meu primeiro despertar – pela literatura – acerca de suas raízes sinistras que nada lembram o que tanto se apregoa por lá sobre “liberdade” [514] e então torno às relações com o exterior e não me surpreende ver que, ao se consolidar como Império, no final da Segunda Guerra (1945), passou no Ocidente a atropelar tudo e todos que se recusam à observância de suas regras de dominação.

O que este aparato estatal tem promovido ao redor do mundo desde então, segue o padrão de seu domínio; por tradição, guerras, por vicissitude do divide et impera, a multiplicação de conflitos em países não aliados e ações militares por procuração, suporte a golpes de Estado e tramas no tabuleiro internacional em favor de regimes autocratas que representam o contrário dos valores democráticos que afirmam celebrar, como os da Arábia Saudita e o do Catar, além do apoio a ditaduras, em especial na América Latina (AL). O Império forma experts em realizar ataques, invasões, prisões arbitrárias e assassinatos em territórios estrangeiros, em sua habitual linha de humilhação da ideia de multilateralismo apregoada na ONU e em outros arranjos internacionais. Também patrocinou grupos radicais islâmicos, como o ocorrido nos campos de treinamentos da Al-Qaeda para combate no Afeganistão contra os soviéticos [515], de onde saiu Osama Bin Laden, além de inventar estados que funcionam como órgãos mais específicos de sua estrutura provincial, e aqui penso no Panamá (que expropriou a Colômbia) e um pouco no Paquistão, criado no meio das tensões entre Índia e China [516]. Em suma, vejo o Império como a principal neoplasia maligna do mundo, mas isso não significa que responsabilizo coletivamente seus cidadãos, pois seria a mesma injustiça de, por analogia, culpar todos os judeus por atrocidades cometidas sobre os palestinos no âmbito do Estado de Israel.

Volto-me à experiência de leitura deste capítulo de Chomsky. Bem antes da Segunda Guerra, embora já ocupando a posição de maior potência econômica do planeta, a política americana não exercia o protagonismo do “gerenciamento global”, indica o linguista. Face à condição da nova ordem dual-imperialista estabelecida no desfecho da Guerra, sobre o lado americano, destaco o que menciona Chomsky sobre o Plano Marshall (p. 152), que proporcionou o ambiente adequado para o que chamo de “modelo de ocupação” pela via econômica, alguns diriam “neoliberal”, quando prefiro chamar de “capitalismo de laços”, por investimentos na Europa que prepararam o terreno para multinacionais sob o “guarda chuva do poder americano” (p. 153). Penso que fora bem mais sutil que o soviético, de ideologia bruta, bem mais fácil de ser identificada pela forma dos regimes.

O mundo em que Henry Kissinger falou sobre “interesses e responsabilidades globais” (trecho desta Leitura, p. 151) dos Estados Unidos, penso, tinha a União Soviética para se contrapor como resultado dos espólios da Segunda Guerra que humilhou a Europa dividindo-a pelo epicentro de Berlim. Já no mundo em que vivo, o Império que ficou de pé tem a China e a Rússia em uma sombra deste antagonismo geopolítico-ideológico.

Tenho a concepção de que o resgate e a recuperação do Velho Mundo vieram, entendo, com o “cavalo de Tróia” da vassalagem a Washington sob os “princípios norteadores” analisados por Chomsky, que seguem vigentes, além do contexto do atentado de 11 de setembro, abordado nesta obra. Até hoje o “lembrem-se quem resgatou vocês de Hitler” é subliminarmente passado na face dos europeus junto com a ideia de que o Império pode viver sem a OTAN, mas seus vassalos, não. Então, entre as coisas que continuam no status quo dos tempos da Guerra Fria está o fato de a Europa, junto com Israel e a AL funcionarem como províncias da Casa Branca, compondo as bases de controle do Império no Ocidente com exceção de Cuba (o que acabou com a vassalagem foi a revolução de Castro) e algumas experiências pontuais.

Então penso na Venezuela, um caso à parte: o país onde estão as maiores reservas de petróleo do mundo foi de potência da riqueza na AL, que passou pela vassalagem aos Estados Unidos até um pouco depois da queda do sistema soviético, a uma nação que experimentou uma revolução socialista “bolivariana” que a empurrou para o rol dos países mais pobres no eterno quintal mais distante da Casa Branca.

O Império agora está abalado e recorre ao Lebensraum; diante da grande ameaça corrente aos seus planos de dominação eterna, ao considerar o binômio China-Rússia, prepara-se para anexar territórios, como se dá no caso da Groelândia, seja para ampliar seus escudos territoriais, seja pelas terras raras, ponto forte do binômio, no entanto, o Império terá que contornar um grande impasse com seu vassalo mais influente ao intencionar a tomada de território sob um de seus pares (a Dinamarca), no âmbito europeu membro da OTAN, eis o novo grande dilema (aqui tento atualizar a essência do capítulo pensado há 24 anos), o líder da OTAN em eventual ato hostil contra um de seus membros: vai implodir a Aliança? Não antes de ver todos os insatisfeitos de joelhos.

Pelo lado do maior desafiante ao Império há a Coreia do Norte, que pode servir para algumas tarefas radicais, e a retórica de um desgastado Irã no Médio Oriente, ambos elencados no dito “eixo do mal” dos moldes americanos, além uma Índia nuclear sob conflito de interesses, em meio a aliados de desprezível expressão militar que parecem crer no romântico termo “multipolar”, um tanto “enamorados” pelo arranjo do BRICS, embora possuam vassalagem com a Casa Branca, como é o caso do Brasil.

514. 13/08/2025 22h30

515. 10/03/2022 23h12

516. 25/04/2025 22h38

2 Replies to “08/01/2026 22h00 O Império Americano: Hegemonia ou Sobrevivência. Capítulo 6. Os Dilemas do Domínio”

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