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“Belo e feio – Não há nada tão condicional e limitado como nosso sentido da beleza.” […]
Obra: Crepúsculo dos Ídolos. Passatempos intelectuais. 19. Belo e feio Nova Fronteira, 2017, Rio de Janeiro. Tradução de Edson Bini e Márcio Pugliesi. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).
Quando li Nietzsche pela primeira vez – naqueles meus 17 anos – fiquei com uma sensação um tanto curiosa que conservo até hoje: a de que se trata de um pensador muito controvertido com ideias que costumo discordar enquanto tenho apreço.
O marrento intelectual de minha preferência parece que vê sentido no belo pelo prazer. “O que quer representar o belo abstraído do prazer que o homem produz no homem perderá o equilíbrio em seguido”, argumenta. O belo em si, segue o filósofo do martelo, não chega nem a ser uma ideia, enquanto é usado como medida de perfeição para o homem se adorar . Longe de qualquer sentido de reprovação, o juízo do belo, sendo a vaidade da espécie, seria uma manifestação do que é a causa da beleza do mundo (p. 84), ou seja, o ser humano. “Nada é belo. Somente o homem é belo”, e mais adiante, Nietzsche trata o outro lado onde “nada é feio não ser o homem que degenera” (p. 85).
A fealdade para Nietzsche está ligada ao modo deprimido, à diminuição daquela “vontade de potência” que ele tanto se ocupou em discorrer. Tudo o que reduz a potencialidade do homem se dá com o aumento da feiura e tudo o que aumenta a “vontade de potência” está para a beleza (p. 85). A fealdade é um sinal de degeneração que provoca um juízo do feio que pode ser evidenciado no esgotamento em em meio á velhice, ao cansaço, “toda a espécie de constrangimento como a convulsão ou a paralisia e, sobretudo o odor, a cor e a forma e a forma da decomposição” (p. 86). Belo e feio, em Nietzsche tudo se explica pelo estado do homem.
Passou a minha juventude, período que hoje considero desaconselhável para ler o marrento com maior disposição, mas não considerei isso de maneira que representou uma fonte quase inesgotável de perturbações, e então entrei na dita “terceira idade”, quando me senti menos acuado para dialogar com seus escritos politicamente incorretos e, destarte, vez ou outra, parava para pensar nessa intrigante centralidade dele no ser humano.
O filósofo se volta ao ser humano, pensei um dia desses, como forma de se proteger do pensamento do belo a considerar o “além do homem”, quando me dei conta que recorri a um termo familiar para me referir à beleza que há no mundo onde o homem é apenas um objeto entre outros, ou um expectador de fenômenos, alguns diriam, um apreciador de “obras” as quais definitivamente não elaborou, não participou na construção. E se há o belo, e também não há o feio, sobre o que o homem não colaborou, então, essa causa seria além das possibilidades humanas, o que esvazia o antropocentrismo do marrento filósofo do martelo.
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