Imagem: Smithsonian Magazine

Estátua em memória das vítimas do desastre de Bhopal / 3 de dezembro de 1984

“There were thousands of bodies. There were bodies everywhere. And people were dying all round.”

Mohammad Owais, a volunteer at Hamidia Hospital

Between 7,000 and 10,000 people died within three days of the gas leak. This estimate, based on information obtained by Amnesty International, is two to three times that of most official sources.

Obra: Clouds of injustice. Bhopal disaster 20 years on. CHAPTER 1: The gas leak – a human rights tragedy. Amnesty International Publications, 2004, London. Por Anistia Internacional.

Na unidade da norte-americana Union Carbide em Bhopal ocorreu a maior tragédia da história da indústria, que revelou um escândalo de impressionante negligência com a segurança, seguida de uma impunidade que é de fazer inveja à tradição brasileira.

No meio da noite do dia 2 de dezembro de 1984, nos assentamentos ao redor da fábrica de pesticidas, o marido de Puna Bai, uma jovem mãe de três filhos, acordou e de repente começou a tossir. Nesse meio tempo ouviu gritos vindos de fora. Foi então que a senhora Puna Bai se deu conta do que estava acontecendo (p. 7):

“Assim que o meu marido abriu a porta, tudo o que vimos foi fumaça entrando em nossa casa. Todos começaram a tossir e meus filhos reclamavam de ardência nos olhos. Depois ouvimos alguém dizendo que todos deveríamos correr porque um cano de gás havia explodido na fábrica da Union Carbide. Corremos e, eventualmente, eu me separei da minha família. Só me lembro de não conseguir encontrá-los e depois disso, perdi a consciência.”

O gás mortal do isocianato de metila (MIC) devastou… Estima-se que entre 7.000 e 10.000 pessoas morreram nos três dias seguintes ao vazamento, aponta-se neste livro lançado em referência aos vinte anos da tragédia. A Anistia Internacional se baseou em informações que indicam um total de vítimas duas a três vezes maior que a da maioria das fontes oficiais (p. 10).

Fotografias revelam um horror de corpos espalhados por ruas e estações de trem. Os números oficiais não contabilizam as pessoas que morreram após a fuga em massa da cidade. Não se sabe, entre as centenas de milhares que deixaram a área, quantas morreram. Foram encaminhados cerca de 15.000 pedidos de indenização por mortes, mas o governo aceitou pouco mais de 5.000. Em muitos casos não havia mais ninguém para apresentar os pedidos (p. 12).

As sequelas perduram. Médicos da Union Carbide insistiram na época do vazamento que o MIC só poderia causar lesões superficiais e que não entrava na corrente sanguínea nem atravessava a barreira pulmonar. Porém, análises posteriores de sangue e tecido revelaram evidências de metil
carbamilação no sangue das vítimas fatais e trímero de MIC, uma substância química encontrada nos resíduos do Tanque 610, que é conhecido por ser a fonte do vazamento de gás. Na Clínica Sambhavna Trust, apontou-se que a exposição às toxinas que vazaram na noite de 2/3 de dezembro de 1984 resultou em doenças crônicas e debilitantes para pelo menos 120.000 pessoas, para as quais o tratamento adotado se mostrou amplamente ineficaz (p. 12).

Assisti à minissérie The Railway Men: The Untold Story of Bhopal 1984, da Netflix. Inspirada na tragédia, a produção se destaca pelo contexto do heroísmo de trabalhadores da ferrovia no desespero da população.

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