Imagem: Mundaréu

‘Papai, então me explica para que serve a história’, assim um garoto, de quem eu gosto muito, interrogava há poucos anos um pai historiador. […]”
Obra: Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Introdução. Zahar, 2001, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Marc Léopold Benjamin Bloch (France/Lyon, 1886-1944).
Na tarde do último domingo de março passado, estava na livraria Leitura do Shopping Rio Mar a procura de obras de Ilan Pappé, e em meio a uma conversa com o atendente sobre os trabalhos do historiador israelense, um senhor de semblante tenro, calmissimamente se aproximou e perguntou-me:
– Perdoe-me interrompê-los. O senhor é professor de história?
– Não sou, mas a história é um de meus amores por causa de Marc Bloch – respondi.
O senhor parou, e como quem parecia revisitar memórias sublimes pelo olhar, disse-me:
– Ah… Marc Bloch… Linda é a aquela introdução de Apologia de história…
– Foi por essa obra, inacabada, que nasceu o meu amor pela história, especificamente pelo problema que Marc Bloch apresenta (p. 41) a partir da pergunta do menino – expliquei.
Apologia da história, ou, O ofício de historiador é a resposta de um pai ao filho. É o esforço de um dos maiores historiadores, profissão de fé de um intelectual que gostava de falar tanto a doutos quanto a escolares. A pergunta do menino alguns podem julgá-la como ingênua, menciona Bloch, mas é pertinente, pois coloca o problema que “não é nada menos do que o da legitimidade da história” (p. 41). Diz respeito a uma tarefa que supera pequenos escrúpulos de uma moral corporativa pela qual a civilização ocidental inteira se insere (p. 42), a desafiar o ofício de quem se dedica a uma ciência em marcha que está na infância (p. 47).
Iniciou-se então uma conversa com o distinto senhor, professor aposentado que me lembrou o jeito de ser de um colega que lecionava história do pensamento econômico, o qual fui aluno na universidade e que me apresentou as obras de Bloch de uma forma que compreendi a sua grandiosidade. Era um docente cujos olhos brilhavam toda vez que falava sobre o historiador francês.
Conversamos sobre este livro e a vida de Bloch, e inevitavelmente passamos então à Escola dos Annales, onde revisitamos os principais pontos da obra homônima de Peter Burke. A conversa agradabilíssima fez o tempo passar rapidamente quando chegamos ao tema dos Novos Historiadores entre acadêmicos de Israel, onde se insere Illan Pappé. Por tabela alcançamos a “Questão Palestina” e terminamos no momento crítico de maior belicismo que o mundo passa, quando me lembrei de um aforismo do saudoso professor que me colocou no caminho do amor pela história:
A guerra é o que acontece quando a política falha.
2 Replies to “07/04/2026 21h00 Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Introdução.”