Imagem: Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux

Não é má essa ideia. Mas, em geral, a utilidade das estátuas em praça pública é reduzida.”

Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. Livros na Mesa. Romance Brasileiro. Em torno de um monumento. Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).

Em relação a um monumento pensado no Rio de Janeiro em alusão ao cinquentenário da morte do gênio da literatura Machado de Assis (p. 884), não apenas brasileira, penso, mas também universal.

No universo literário brasileiro, Machado de Assis é equivalente a Dante para os italianos, Cervantes para os espanhóis, Shakespeare para os ingleses e Goethe para os alemães (p. 885), lembra o intelectual austro-brasileiro.

Carpeaux argumenta: “Melhor do que em pedra sobrevivem os grandes escritores através das sucessivas interpretações que sempre lhes mantêm viva a obra” (pp. 884-885). No país em que, dizem (considero um estereótipo sobre o brasileiro), o hábito da leitura é escasso, sobre isso, pensei que mais eficiente que uma estátua é mesmo o trabalhar das obras de Machado de Assis nas artes em geral. Nesse aspecto, a minissérie Capitu (2008) foi exemplar no sentido de incentivar, pelo menos, a curiosidade com a obra original.

É comum ocorrerem críticas sobre “distorções” ou “falta de fidelidade à obra” nas interpretações mas, mesmo sendo válidas mediante uma interpretação considerada incomum, de uma releitura particular do diretor, entendo que ainda sim a adaptação pode ser válida e mais útil para atender ao propósito que o crítico literário suscita.

Lembrei-me de um colega de faculdade que todo dia passava na Praça Maciel Pinheiro, mas não se dava conta da estátua de Clarice Lispector (1920-1977), no entanto, quando na aula de sociologia mencionei a personagem Macabéa, ele a associou ao filme A Hora da Estrela (tinha visto nos anos 1980) e então descobriu o romance e as virtudes literárias da autora.

Sobre Capitu, penso que a minissérie da Globo talvez tenha sido a melhor adaptação de longo alcance no universo de Dom Casmurro, notabilizada pela qualidade da produção. Lendo este ensaio de Carpeaux, lembrei-me também da adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (2001) na sétima arte, feita por André Klotzel a qual não considerei tão empolgante quanto ao trabalho interpretativo que protagonizou Capitu, embora tenha inovado em citações do Bruxo do Cosme Velho.

Além da menor serventia das estátuas em comparação com adaptações das obras, Carpeaux analisa com detalhes, algumas críticas de Octávio Brandão (1896-1980) aos romances de Machado de Assis, bem como a crítica que o ativista comunista apresenta à critica machadiana (p. 886) e conclui que Brandão “não se esforça para explicar a Obra de Machado pela sociedade em que viveu; esforça-se para responsabilizar o escritor pela sociedade” (p. 887), a qual fora “pré-bruguesa” ou “escravocrata”. Neste ponto, penso, merece o registro que acontece o mesmo hoje quando se alega racismo, por exemplo, em obras de Monteiro Lobato (1882-1948), sem considerar o problema do “homem de seu tempo”, sem pesar que o grande autor de Taubaté desenvolveu personagens que retratavam aspectos comuns da sociedade em que atuou.

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