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“[…] Quando uma pessoa LGBTQIAPN+ encontra apoio e aceitação dentro de sua família, ela geralmente experimenta melhores resultados em termos de saúde mental […]”
Obra: Casos Clínicos LGBTQIAPN+: Diretrizes Para o Cuidado em Saúde Mental e Sexual. Suporte Social. Artmed, 2024, Porto Alegre. Organizado por Alessandra Diehl.
Pode residir no meio familiar a origem de muitas condições psicológicas desfavoráveis na população LGBTQIAPN+, apontam (p. 15) os autores deste capítulo, a psiquiatra Alessandra Diehl, o psicólogo Rogério Adriano Bosso, a terapeuta ocupacional Aline Coraça e o empreendedor André Ricardo Almeida.
Em vez de um ambiente para acolher seus filiados na expressão da identidade e na liberdade para opiniões em termos de orientação sexual e de gênero, dentro de um espirito fraterno, o seio familiar muitas vezes se revela como um meio inóspito para esta população.
Ao apreciar o tema desta obra, pensei em “família” não apenas no sentido tradicional, baseado em laços consanguíneos, onde são comuns histórias de filhos que não encontraram outra saída além de terem que deixar o lar quando a homossexualidade ou qualquer situação no âmbito LGBTQIAPN+ chegou ao conhecimento dos pais ou provedores. Isso posto, pensei na exclusão do diálogo e do convívio harmonioso, promovida por outros parentes, além de casos de filhos adotivos que passaram a ser rejeitados de forma análoga.
Acompanhei uma situação em uma entidade evangélica tradicional. O pastor-presidente fazia uso constante do apelo ao chavão da igreja sendo uma “grande família”. Porém, a dita “comunhão cristã” da referida “família” infelizmente se mostrou nula no dia em que uma das cantoras do grupo de louvor jovem passou a ser identificada como “lésbica” por parte de alguns membros. A moça então foi afastada do grupo de louvor e de todas as demais atividades. No entanto, felizmente, ela encontrou em outra comunidade evangélica, notada por ser acolhedora do público LGBTQIAPN+, um tratamento digno e assim seguiu sua vida religiosa cristã.
Visitei a igreja disposta ao público LGBTQIAPN+ e pude conversar com a jovem quando eu trabalhava como seminarista. Ocorreu um tempo depois de sua mudança de igreja local. Pude atestar em suas expressões que a nova experiência religiosa lhe revelou um encontro com uma comunidade sob verdadeiro espírito de família, algo que ela não podia contar na igreja anterior, tampouco na sua família consanguínea, em parte, pela rejeição do pai, enquanto a mãe tentava conciliar um conflito que se tornou insustentável, resultando na sua saída para ir morar com a sua namorada, que enfrentou os mesmos problemas em sua família de origem. Um tempo depois se consolidou uma união estável; uma família se formou com a expulsão das duas jovens de suas famílias tradicionais.
Além dos serviços sociais não religiosos, grupos de mútua ajuda e suporte terapêutico (p. 17), escolas (pp. 16-17) e empresas (p. 17), entendo que a igreja evangélica acolhedora de LGBTQIAPN+ que observei também pode ser classificada no grupo de “famílias de escolha” (p. 15), pois se encaixa nos pontos destacados no Quadro I.4 (p. 16) que contribuem para um bom estado de saúde mental.
A diversidade de gênero é um espectro (p. 18), algo muito importante de ser reconhecido e, entendo, não apenas por profissionais de saúde mental, que devem eticamente não se envolver com tentativas de mudar orientação sexual e identidade em pacientes. O tema envolve algo que carece de ser trabalhado em termos educacionais também em famílias, centros comunitários, igrejas, escolas, entidades de assistência social, empresas, enfim, em toda organização no âmbito dos códigos que ordenam os princípios a serem considerados internamente em seus relacionamentos interpessoais.
Em se tratando de famílias tradicionais e igrejas, é preciso a ponderação de que esta educação sobre orientação sexual e identidade de gênero cabe de ser pautada pelo diálogo amistoso, penso, inclusive com o suporte de profissionais de saúde mental a pais, responsáveis e ministros de confissão religiosa, sendo algo jamais impositivo, pois se tratam de instituições normalmente regidas por códigos de fé religiosa que devem ser respeitados dentro de uma razoabilidade.