Imagem: Wikimedia Commons

Ecce Homo (1605/6 ou 1609),
de Caravaggio,
Michelangelo Merisi
(Ducato di Milano, 1571-1610)

“Pilate exclaimed, as he pointed him out to the people; ‘Ecce homo! Behold the man!’ The hatred of the High Priests and their followers was, if possible, increased at the right of Jesus, and they cried out, ‘Put him to death; crucify him.’ ‘Are you not content?’ said Pilate. ‘The punishment he has received is, beyond question, sufficient to deprive him of all desire of making himself king.’”

Obra: The Dolorous Passion of Our Lord Jesus Christ. Chapter XXVII. Ecce Homo. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1862, London. Da Irmã Anna Catarina Emmerich (Deutschland/Coesfeld/Flamschen, 1774-1824).

Quando vi a pintura Ecce Homo de Caravaggio, pensei no realismo típico do estilo do artista e, diria de forma bem mais distinta e profunda, pensei na maneira extraordinária como o realismo foi trabalhado no mesmo Ecce Homo do filme A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson.

A obra dirigida por Gibson talvez seja a maior referência para a páscoa cristã na sétima arte, e não somente entre católicos. No ano do lançamento eu era seminarista da confissão batista tradicional e me recordo de como no meio protestante também foi muito bem recebida.

Lembro-me também das críticas: “antissemita”, “sensacionalista”, “violento além da conta” e “apelativo com o slow motion”, escutei à época, porém, o que me chamou mais atenção foi o realismo das cenas e o roteiro.

Um tempo depois, em busca de minhas leituras devocionais para a páscoa, encontrei o livro The Dolorous Passion of Our Lord Jesus Christ, que descreve as visões da freira agostiniana e mística alemã Anna Catarina Emmerich, mais de 150 anos antes do filme, e não demorou muito para perceber o quanto detalhes narrados, que não estão nos Evangelhos, lembraram-me de várias cenas do filme de Gibson, quando então descobri que o diretor de fato se inspirou no livro [558], entre outras fontes canônicas e não canônicas.

A Dolorosa Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo se revelou um livro impressionante. O gênero, penso, pode ser definido como testemunho da fé, de teor devocional, e consiste em relatos que estão baseados em visões da Paixão de Cristo que a irmã teve.

Fiquei perplexo com a riqueza de detalhes com que a Paixão do Nosso Senhor é descrita, o que foi muito bem adaptado no filme. Lembro-me de quando assisti ao filme pela primeira vez e fiquei com a impressão de que as cenas pareciam ter sido gravadas como se o roteiro fosse de alguém que tivesse visto os eventos in loco, dado o realismo tão impregnado.

Quando conheci o livro da freira Anna Catarina Emmerich, então, pensei, para quem tem fé ou não no testemunho da irmã, que o mérito de Mel Gibson foi ter transportado para o cinema a essência de um livro riquíssimo e muito complexo por estar baseado em visões.

No Capítulo XXVII do livro, a descrição do Ecce Homo me saltou aos olhos:

“Os cruéis carrascos então levaram o Nosso Senhor de volta ao palácio de Pilatos, com o manto escarlate ainda jogado sobre os ombros, a coroa de espinhos na cabeça e a vara em suas mãos acorrentadas. Ele estava completamente irreconhecível, com os olhos, a boca e a barba cobertos de sangue, o corpo com apenas uma ferida, e as costas curvadas como as de um idoso, enquanto cada membro tremia ao caminhar. Quando Pilatos o viu parado na entrada de seu tribunal, até ele (de coração duro como geralmente o era) ao iniciar estremeceu de horror e compaixão, enquanto os bárbaros sacerdotes e o povo, longe de se comoverem com piedade, continuavam com seus insultos e zombarias. Quando Jesus subiu as escadas, Pilatos adiantou-se, soou a trombeta para anunciar que o governador estava prestes a falar, e se dirigiu aos principais sacerdotes e demais presentes com as seguintes palavras: “Eis que o trago à presença de vocês, para que saibam que não encontro nele causa alguma.”

A sequência da audiência com Pilatos, onde Jesus “com dificuldade, ergueu a cabeça ferida, com a coroa de espinhos, e lançou seu olhar exausto sobre a multidão agitada”, também me sensibilizou com as conexões do livro com o filme, a indicar como a obra de Anna Catarina Emmerich deve ter impactado e influenciado o católico Mel Gibson.

Entre as várias conexões, pensei também no trecho (p. 139) sobre o “véu de Verônica”, assim descrito no livro:

“[…] Os que marchavam à frente da procissão tentaram empurrá-la pelas costas; mas ela abriu caminho através da multidão, dos soldados e dos arqueiros, chegou a Jesus, ajoelhou-se diante dele e apresentou o véu, dizendo ao mesmo tempo: ‘Permita-me enxugar o rosto do meu Senhor.’ Jesus pegou o véu em sua mão esquerda, enxugou o rosto ensanguentado e o devolveu com agradecimentos. […]”

A Dolorosa Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo se tornou, pela minha experiência de leitura, ainda mais impactante que o filme, entendi, seja pela maior riqueza de detalhes, o que até é compreensível pelo tempo limitado normalmente aplicável a um filme onde o diretor não tem como contar toda a história como se apresenta em determinado livro de referência, seja pelo que se narra no livro, para tomar como exemplo, sobre a Santíssima Maria em Descrição da Aparição Pessoal da Bem-Aventurada Virgem (Capítulo XXV), um relato da Virgem durante a prisão e o flagelo de Jesus.

A história do livro que ajudou Gibson a contar a Paixão de forma tão impactante, fez-me então pensar na autora, meu próximo registro de Leitura: a freira Anna Catarina Emmeric, que foi beatificada pelo papa João Paulo II em 3 de outubro de 2004 [559].

558.  Ver a obra Jesus and Mel Gibson’s The Passion of the Christ. A&C Black. pp. 160–161, de Corley, Kathleen E. Corley e Robert Leslie Webb (2004).

559. Ver Vaticano: ANNA KATHARINA EMMERICK (1774-1824)

2 Replies to “03/04/2026 14h29 The Dolorous Passion of Our Lord Jesus Christ. Chapter XXVII. Ecce Homo”

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