Imagem: Memória Globo

Paulo Francis

“Mao Tsé-tung disse que ‘poder político nasce de um barril de pólvora’, o que é uma maneira simplificada e grossa de colocar as
coisas, se bem que substancialmente correta, pois o poder reside, em última análise, na capacidade do Estado, de instituições e indivíduos de se imporem na marra. […]”

Obra: Paulo Francis. Uma coletânea de seus melhores textos já publicados. De volta à violência das cavernas. Editora Três, 1978, São Paulo. De Franz Paul Trannin da Matta Heilborn (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de janeiro, 1930-1997). Pseudônimo: Paulo Francis.

Na adolescência eu gostava de imitá-lo em brincadeiras no ginásio. Algo em Paulo Francis me fascinava, a começar por se tratar de um pseudônimo. Quem me explicou pela primeira vez o termo foi minha professora de português na quinta série do ginásio, quando eu comentei um texto dele sobre a União Soviética e ela falou:

– É um pseudônimo, você sabia?

– Professora Graça, o que é isso?

Quando ela explicou, fiquei ainda mais fascinado.

Depois entendi que meu fascínio por Paulo Francis residia na sua liberdade para dizer certas coisas desagradáveis, alguns diriam “politicamente incorretas”. Assim ficava esperando o seu comentário no Jornal da Globo onde ele era menos polêmico, mais contido, em comparação com a fase final na TV fechada – no programa Manhattan Connection – onde ativou o modo “liberou geral” e transpareceu traços de coisas que recuso, como racismo e xenofobia. Aquele deslumbramento de adolescente então se perdeu, mas, apesar do estilo que saia do ponto, Paulo Francis ainda se notabilizava por algumas provocações que exalavam seu estado espirituoso.

Em De volta à violência das cavernas, Francis começa por uma análise do personagem David Sumner interpretado por Dustin Hoffman , do filme Straw Dogs – no Brasil, Sob o Domínio do Medo – um pacato e indeciso professor que se transforma em um homem implacável na vingança do estupro da esposa, matando os violadores, e assim passa a ser admirado pela mulher que até então o tratava com desdém:

“Em suma, respeito, afeto e sexo são concedidos a Dustin no momento que ele volta às cavernas” (p. 97) e mais adiante dispara: “macho é o que mata e o que estupra” (p. 99), conclui Francis desnudando artimanhas de Hollywood.

Em seguida comenta um roteiro de vingança parecido em Marathon Man, Homem Maratona, novamente com Dustin Hoffman no papel principal, para afirmar que Hollywood, naquele tempo, dissemina a ideia da virilidade obtida pelo cano do revólver, e vai adiante com Taxi Driver, onde o personagem de Robert de Niro se realiza com o revólver deixando transparecer que é um gozo muito melhor do que estar com uma mulher (p. 99).

O contexto, na visão de Francis, está em 1975, quando os Estados Unidos saíram derrotados do Vietnã, além da crise política no Watergate, e os filmes refletem sintomas de uma sociedade perturbada, e aqui Francis analisa de forma muito interessante como o entretenimento foi usado para explorar certas questões no imaginário coletivo de forma subliminar;

“Assim, Dustin é o americano derrotado no Vietnã, que escapa do senso de humilhação dando uma de Clint Eastwood (cujos filmes são a expressão, ou sintoma, mais baixo da mesma tendência), como herói de história em quadrinhos, invulnerável e matando todos os adversários, em geral monstros, ou, no mínimo, “diferentes da gente”, isto é, de preferência, não brancos e não de classe média. Os delinqüentes de Straw Dogs e de Taxi Driver são os vietnamitas disfarçados em malandros do interior da Inglaterra, ou dos guetos raciais de Nova York. Szeil, o gênio do mal, é um travesti nazista do diabolismo comunista que ameaça o conforto da sociedade de consumo americana. Filmes babalaôs, O Exorcista e Omen, simbolizam Watergate: o demônio é mais simples do que Richard Nixon” (p. 99).

Eis um exemplo de um estilo de abordagem que me despertou para tentar ver arte além do que aparenta ser, sobretudo a sétima que é tão poderosa como entretenimento.

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