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 Jessé de Souza

“[…] Quem mais acredita na meritocracia – a crença do mérito individual no sucesso social – é o mais pobre, ou seja, justamente a sua maior vítima [4]. […]”

4. Nota do autor: Ver Jessé Souza, op. cit., 2022b.

Obra: O Pobre de Direita. A vingança dos bastardos. Introdução. A síndrome do coringa. Civilização Brasileira, 2024, Rio de Janeiro. De Jessé José Freire de Souza (Brasil/Rio de Grande Norte/Natal, 1960).

Em 2024 encontrei um velho professor conhecido do tempo universitário em uma livraria do Rio Mar. À época ele estava como candidato a vereador por um partido de esquerda no Recife.

– Você ainda acredita em meritocracia? – perguntou-me a lembrar do tempo (2007-2010) em que conversávamos sobre liberalismo econômico versus intervencionismo, quando então respondi de bate-pronto: “Não”. Referia-me à forma que eu defendia.

– E continua austríaco? – seguiu com maior curiosidade.

– Sim – respondi sob um olhar tipo “agora fiquei confuso” e então fez a pergunta inevitável:.

– Como pode um sujeito que se diz defensor radical da economia de mercado não acreditar na meritocracia?

A conversa ficou ainda mais interessante porque ele estava lendo a introdução deste livro de Jessé de Souza a tratar justamente – entre outras coisas – da meritocracia. Ele chegou a ler para mim o trecho (p. 19) desta Leitura. O meu ex-colega de polêmicas se lembrou de como eu falava apaixonadamente em favor da meritocracia e então resolveu se acomodar melhor em uma das mesas de leitura para ouvir minha resposta, como se estivéssemos em nossos acalorados encontros de ideias antagônicas, após o que entendeu ser uma ambiguidade de minha parte.

Resumidamente:

Entendo que no mercado há uma meritocracia relativa e aqui penso no que Mises aponta em seu tratado de economia [636]:

“Os consumidores escolhem os líderes da indústria e do comércio exclusivamente pela capacidade por estes demonstrada de ajustar a produção às necessidades dos próprios consumidores. Nenhuma outra característica ou mérito lhes interessa.”

Deixei de acreditar na meritocracia como conceito absoluto, elevado, predominante, diante de outros fatores, quando passei a refletir sobre externalidades e percebi que inúmeros fatores se estabelecem além do controle de agentes econômicos que atuam no mercado, de maneira que o termo “meritocracia” isolado, como elemento de maior destaque, torna-se vazio e por isso o inseri na lista de utopias da economia e da vida em geral, sobretudo as idealizadas ou romantizada, quando confrontadas com o realismo que vejo na catalaxia ou na ordem espontânea apontada por Hayek, com suas dispersões, imprevisibilidades, seus fenômenos carregados de intangibilidades. Ampliando a crítica, penso em qualidades que são demandadas e essenciais em relacionamentos e negócios, mas é preciso que ocorra uma combinação de fatores fora do alcance dos que possuem seus méritos, para que as coisas possam dar certo.

Um competente gestor de empresa se caracteriza por uma série de virtudes, mas diversas coisas relacionadas direta e indiretamente ao que administra, em uma ordem de cooperação ampla e espontânea (ou não), precisam funcionar bem para que os objetivos sejam alcançados. Um avião para decolar em segurança requer uma boa tripulação e uma lista de fatores que contribuam para o sucesso do evento, e tais elementos estão fora do alcance de quem pilota a aeronave e cuida da segurança. Sou programador e em meio ao que desenvolvo tenho consciência que uma série de coisas além de minha competência precisam dar certo para que uma rotina produza os resultados esperados. Em outras palavras, o sucesso ou o fracasso de um negócio tem mais a ver com variáveis que o empreendedor não pode controlar do que com aquelas possíveis de planejamento e domínio onde reside a natureza do mérito.

O meu interlocutor percebeu que usei um conceito (dispersão de conhecimentos) da Escola Austríaca para desmistificar a meritocracia levada ao suprassumo da auto exaltação na sociedade moderna. Há outros elementos, retomando o tema à economia, que denotam o teor ilusório deste termo quando suscitado fora da relatividade, normalmente apregoado em grupos de direita e por liberais em economia. Penso aqui em política intervencionista governamental que, inevitavelmente, afeta a livre concorrência e tira o mérito da pureza da competição mercadológica, tornando negócios mais dependentes de relacionamentos com agentes estatais, legislativos e governamentais, transferindo parte dos esforços pela eficiência em favor do que demanda o consumidor, para atender a exigências estranhas e que provocam distorções na concorrência, de maneira que desse processo (político) se desdobra o que é conhecido por “capitalismo de laços” ou de “compadrio”, que é uma forma de destroçar a essência da meritocracia no espectro capitalista.

A desigualdade é perene na sociedade sob relativa liberdade econômica e defini-la como um ambiente de meritocracia é uma contradição em termos, pois o poder econômico exerce um peso na competitividade e se torna ainda mais desproporcional entre os competidores quando variáveis políticas são inseridas em favor de determinados grupos. Em suma, a meritocracia em si mesma, à mon avis, é uma ilusão, uma fantasia na mente de quem fala sobre o termo como se tivesse lidando com algo que independe de coisas que não pode gerir quando na verdade o que se controla é até mesmo insignificante. Aqui penso em um problema de carência de humildade para reconhecer a pequenez do agente humano, especialmente entre os que se exaltam com o que entendem sobre a própria meritocracia que, penso, é algo muito inferior no peso dos resultados que obtiveram.

Evidentemente, o meu argumento acerca do que defino como “ilusão” da “meritocracia” está distante da crítica do sociólogo Jessé de Souza, baseada na análise sobre como funciona o mundo social permeado por opressão de poderosos que se aproveitam dos “Coringas modernos” (p. 19) como matéria-prima em seus esquemas de manipulação, onde o trecho se relaciona, além do objetivo final de manter sua hegemonia o que, penso, indica uma abordagem também a ser considerada para descontruir o deslumbramento com o termo.

No final daquela conversa, o meu interlocutor saiu certo de que seu antigo contestador “austríaco” e libertário ficou “diferente”, um tanto “híbrido” e até sugeriu uma nova classificação para um pensamento que lhe soou tão inusitado: “neoaustrolibertarismo” (risos).

636. Ação Humana. Instituto Ludwig von Mises, 2010, São Paulo, p. 374.

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