Imagem: Renovatio Imperii

“Muitas vezes um homem que é muito velho em anos não tem nada além da sua idade, pelo que possa provar que já viveu muito.”
Obra: Sobre a Tranquilidade da Alma. III. 7. Montecristo, 2018, São Paulo. Tradução e notas de Alexandre Pires Vieira. De Lúcio Aneu Séneca (Império Romano/Espanha/Córdoba, 5-65).
O trecho (p. 23) me remeteu ao filosófico livro de Jó cujo personagem central, em profundo sofrimento pessoal, passa por um longo diálogo com três amigos onde se discutem os dilemas da existência e eis que surge o tema da sabedoria atrela à velhice (12.12). Bem mais adiante, Eliú, filho de Baraquel, mais jovem, vendo que os demais se recolheram ao silêncio diante das perturbadoras questões de Jó, decide então se manifestar e no exórdio afirma:
“Não é a idade avançada que dá sabedoria, nem a velhice o discernimento do que é justo.” (32.9)
A idade avançada em si não garante sabedoria, eis uma obviedade ululante como diria Nelson Rodrigues que clamou pelo envelhecimentos dos jovens. Penso em especial, um aspecto dessa condição: a maturidade, no entanto, a sabedoria e a maturidade fluem com o tempo dependendo de como cada pessoa o aproveita com o espírito e o amor ao conhecimento.
Ocorre que converso muito mais com quem ronda a idade que meu pai teria hoje do que os estão na minha faixa etária ou mais jovens. Em minhas buscas para tentar compreender melhor o mundo, aprecio atenção especial aos mais vividos, sempre levando em conta o exórdio de Eliú. Penso que isso ocorre em face de que muitos envelhecem e ficam estáticos para uma interação com conhecimentos e espiritualidade em um mundo pensado por Heráclito e por isso precisam de renovação mental independentemente da idade; mas se uma mente se tornar fechada com o passar do tempo, ficará mais suscetível a preconceitos, intolerâncias e convicções que não passam de crenças rasas sobre diversos aspectos da vida. Vi e vejo setentões e oitentões se comportando como adolescentes enquanto outros são verdadeiros líderes com notável categoria.
Estava observando um grupo de senhores acima de 70 ciclos solares em um debate, onde eu não passava de um intruso então nas minhas 40 primaveras. Conversavam sobre problemas do Brasil que costumam ganhar noticiários e botequins. Ouvi ideias mercantilistas em economia do século XVI serem apresentadas como se fossem novidades. Depois me deparei com “soluções” que envolviam “tabelamento de preços” e que me remetiam à União Soviética, a maior experiência socialista da história que faliu em 1991 na planificação da economia, ignorando as leis de mercado. Aqueles simpáticos, alguns nem tanto, senhores grisalhos que falavam em um estilo meio “sábio das montanhas”, também demonstravam desconhecer coisas básicas da política progressista adotadas no Brasil nos anos 1970 enquanto se diziam “conservadores” e expressavam saudosismo de homens de farda da última ditadura militar tupiniquim.
Um tempo depois pude ouvir outro grupo de senhores, abrilhantado por senhoras, todos acima de sete décadas e fiquei por mais de duas horas anotando referências bibliográficas e nomes de autores que eu nunca tinha ouvido falar, e assim fiquei mais animado sobre a possibilidade de envelhecer.
Em suma, com um pouco de um clichê sobre a vida sendo um eterno aprendizado, a maturidade é um processo que depende muito da humildade para compreender os outros, ler o mundo e interagir com sabedorias; tal propósito para ser realizado depende de uma mente aberta para se questionar e saber ouvir quem pensa diferente. Quando se envelhece assim, penso, certamente haverá um poço de sabedoria a iluminar os mais jovens, e assim encerro com o aforismo dos anões e gigantes atribuído a Bernardus Carnotensis (Bernardo de Chartres, (?-1160) por João de Salisbury (1120-1180) em Matalogicon (III, 4):
Dicebat Bernardus Carnotensis nos essi quasi nanos gigantium humeris insidentes, ut possimus plura eis et remotiora videre, non utique propii visus acumine, aut eminentia corporis, sed quia in altum subvehimur et extollimur magnitudine gigantes. [660].
660. 05/05/2026 21h46: “Bernardo de Chartres dizia que somos como anões aos ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude de nossa estatura ou da acuidade da nossa visão, mas porque, estando aos seus ombros, estamos acima deles.”