Imagem: El Español

Umberto Eco

“[…] a polêmica história dos anões e dos gigantes é apenas um capítulo da luta milenar entre pais e filhos que, como veremos no final, ainda nos diz respeito.”

Obra: Aos Ombros de Gigantes. La Milanesiana. Gradiva, 2010, Lisboa. Tradução de Eliana Aguiar. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).

Quando visitei a Europa pela primeira vez (2018), este livro foi a primeira coisa que comprei. O texto é o primeiro de uma série e dá nome ao livro. Aos Ombros de Gigantes foi lido por Umberto Eco em forma de lectio magistralis (Nota prévia) no festival La Milanesiana de 2005 (p. 36).

O aforismo dos anões e gigantes (p. 22) envolve um questionamento entre humildade e soberba (p. 24) em relação ao que os antigos deixaram:

“Somos como anões aos ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude de nossa estatura, ou da acuidade de nossa visão, mas porque, estando aos seus ombros, estamos acima deles“.

É atribuído a Bernardus Carnotensis (Bernardo de Chartres, (?-1160) por João de Salisbury (1120-1180) em Matalogicon (III, 4). Tornou-se popular no período medieval, em meio a inovação que representou o início da história da modernidade. Essa inovação “só o pode ser porque recupera modelos esquecidos pelos pais” (p. 26), e assim o aforismo passava a ideia de que se poderia resolver “de modo aparentemente não revolucionário o conflito entre gerações” (p. 24), no entanto, o conceito dos anões aos ombros de gigantes surgiu no século VI, em Prisciano (p. 23).

A polêmica reside no entendimento de soberba no desprezo pelo que os pais deixaram, atribuindo avanços em determinadas questões apenas a si, caracterizando uma ruptura, normalmente associada a algo dito “revolucionário”. É neste ponto, entendo, que reside o conflito que Umberto Eco aborda, em diferentes visões, privilegiado por sua erudição, ao apresentar o tema na abertura do texto cujo trecho (p. 11) destaquei nesta Leitura.

É naturalmente tensa a relação entre tradição e inovação. Umberto Eco então proporciona ao leitor uma viajem para abordar essa tensão entre pais e filhos, onde surge o termo modernus (p. 19), inicialmente na filosofia, da antiguidade, passando pelo longuíssimo medioevo até chegar no que chamamos de modernidade. A reação dos “partidários do passado”, é recordada por Horácio nas Epístolas II, I, 75 (p. 13); estão incomodados pelo que chamamos de inovações e, penso, esse embate hoje muitas vezes cai em um senso comum tipicamente raso quando os que se portam assim são chamados de “conservadores”, o que entendo ser uma imprecisão comum usada para defini-los.

Desde que li o aforismo pela primeira vez, entendo que expressa um tom de humildade baseada em respeito aos antepassados enquanto também se envida por inovação. Saber de onde veio, conhecendo melhor o próprio passado, sobretudo identificando a contribuição dos que se foram e possibilitaram conquistas e lições, entre erros e acertos, envolve a questão acerca de onde nos encontramos e para onde imaginamos que estamos indo.

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