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“[…] um indivíduo não começa a estar verdadeiramente vivo até que tenha perdido a si próprio, até que ele deixe de se apegar ansiosamente à sua vida, suas propriedades, sua reputação e sua posição.[…]”
Obra: Torne-se o que você é. O paradoxo da autonegação. Vozes, 2020, Petrópolis. Tradução de Jacqueline Valpassos. De Alan Wilson Watts (UK/England/Chislehurst, 1915-1973).
É preciso morrer para vir a ser o que é ou em versos do poema budista (p. 11) que abre o capítulo:
Enquanto você viver,
seja um homem morto,
totalmente morto;
Então, o que quer que
faça, seja como for, sempre
estará certo.
E na tradição bíblica do Novo Testamento, destacada pelo filósofo britânico:
“Aquele que perde a sua vida encontrá-la-á”
O autor faz alusão a Mateus 10.39:
“Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á.”
Aos Gálatas (2.20), São Paulo foi ainda mais enfático nessa morte:
“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo, na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.”
São Paulo é lembrado pelo autor em outro contexto, em um esvaziamento do desapego as coisas materiais, dito aos coríntios na segunda carta (6.10) no estar “pobre”, mas capaz de enriquecer a muitos, na graça de uma vida “na qual nada se tem, mas tudo se possui” (p.11)
Universal é o tema dessa morte escandalosa e libertadora do que penso acerca de um estilo de vida que se pauta na representação que atende tão-somente à influência do que se espera do juízo exterior, do espírito guiado pelo que os outros pensam e definem, o que se junta ao que entendo como “ilusão do ego” que acompanha outras ilusões: diante dessa vida submissa, há a ilusão de autonomia, felicidade, segurança e controle do que não pode ser controlado.
Em suma, que morte é essa? A de aparentar ser o que não é.
Penso, no entanto, que somente haverá sentido nessa morte que precede um renascimento ou uma revolução pessoal, tornando irreconhecível e desprezível quem por ela passa, se for uma experiência na própria pele, o que me faz pensar no quanto demanda de μετάνοια para alcançá-la; fora disso, será apenas uma teoria, ou uma mera abstração alheia e sem qualquer significado para quem a observe, sem um despertar que possa desencadear um impacto tão poderoso. Penso aqui em um legado, um exemplo de vida morta extraordinária, cujo testemunho se internaliza, sendo capaz de atingir juntas e medulas do espírito de quem a conhece e assume sem assumir a intenção de parecer muito esforçado e dotado de dons especiais (p.15).
Quem terá a coragem de deixar a manada das aparências, dos modismos, da falta de consciência no que se faz, da carência de autenticidade em relações comumente chamadas de “amizade”?
Quem será capaz de largar um estilo de vida tão bem visto e vazio de autenticidade, para atender a esse chamado misterioso que moveu vultos na extremidade de um São Francisco de Assis e um São Vicente de Paulo, mencionados (p. 12) no texto?
Quem há de buscar essa morte no mundo onde se apela a realização dita “pela felicidade”? Quem seria capaz de viver um amor incondicional e incompreendido pela ética de ser o que realmente é, livre de subterfúgios, falsidades morais e hipocrisias em nome de algo supostamente espiritual (p. 12)?
Não se trata de um preceito tal esvaziamento abordado pelo autor, tampouco uma carga de moralismo pretensioso. O que se propõe está inspirado em uma conversa entre Confúcio e Lao-tzu para assumir uma realidade que se dá de muitas e diferente formas (p. 13). Ser autêntico para desapontar um mundo de aparências e reconhecer um fato universal da vida (p. 15), sem auto exaltação, inclusive do sofrimento que se passou, de forma simples, pelo que os budistas chamam de upaya (p. 14), os meios hábeis para transmitir alguma verdade por via indireta, sem negar, fugir ou dissimular diante dos sentimentos, conhecendo-os melhor, acolhendo-os, para poder não sucumbir ao amor por excelência na arte de se conduzir pela vida sem cometer agressões com os outros e com a natureza.