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Fiódor Dostoiévski

“[…] A marca deixada por ele em minhas primeiras impressões da infância foi tão forte que influenciou o resto de minha vida. Para que se compreenda o meu relato vou , em primeiro lugar, narrar aqui a sua biografia. […]”

Obra: Niétotchka Niezvânova. Capítulo um. Editora 34, 2009, São Paulo. Tradução de Boris Schnaiderman. De Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Império Russo/Moscou, 1821-1881).

Неточка Незванова

Niétotchka, inventado pela mãe da personagem diminutivo carinhoso de Ana (p. 44). Na nota do tradutor também se comenta sobre a simbologia dos nomes como característica de Dostoiévski. No caso, o primeiro nome pode se relacionar com niet (não) a indicar certamente as criaturas abandonadas e desprotegidas.

Os elementos impactantes da infância na formação da personalidade de uma menina de recordações tardias, aos oito anos (p. 35), eis o desenvolvimento deste romance produzido entre 1846 e 1849. Freud não tinha nascido, pensei.

No trecho (p. 9), um ponto que resisti bastante ao ser psicanalisado na juventude, o que, em parte – entendo hoje – faz sentido quanto ao determinismo.

Outro ponto neste primeiro capítulo, cuja ênfase está no histórico do padrasto, diz respeito à figura paterna da menina por conta do pai biológico ter falecido quando ela tinha dois anos, a lembrar outra atividade que fiz entre 1999 e 2000: o mergulho na história de minha família, o que me ajudou a compreender melhor os meus pais e a estrutura em que fui criado. A personagem então se pauta inicialmente na biografia do padrasto para se apresentar, em um curioso ensaio proto-freudiano.

No caso do padrasto, Iefímov, objeto de admiração da personagem enquanto menina; ele fora violinista e clarinetista, entregue ao vício de bebida alcóolica (p. 29), um tanto insolente (p. 25), prepotente com fetiche em torno do que pensa de si como talentoso, fazendo uma espécie de “gênio incompreendido” que se finda em uma vida “triste doentia e delirante” (p. 34), ilustrando a figura paterna ausente, que não cuidou da família, em profunda pobreza, culpando a esposa pelo fracasso.

O histórico descrito por Niétotchka Niezvânova me remete à clássica pergunta que tanto me ocupei em termos de refutar o meu psi:

Experiências na infância terão mesmo peso definitivo para o resto da vida?

Com o tempo percebi que esse problema está muito mais relacionado ao que é interpretado com certa dose de fatalismo, fora do alcance do que pode ocorrer no desenvolvimento pessoal. Posteriormente me arrefeci da resistência à psicanálise pelo via do reconhecimento dos impactos do que moldou minha educação, sem me restringir a eles, abrindo perspectiva para a psicologia adleriana, mas sem tirar os olhos de Freud.

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