Imagem: Yale University,

Oscar Wilde

“A harmonia da alma e do corpo – quanto isso significa! Nós, em nossa loucura, separamos os dois e inventamos um realismo que é vulgar, uma idealidade que é vazia.”

Obra: O retrato de Dorian Gray. Capítulo 1. L&PM Editores, 2001, São Paulo. Tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. De Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (Irlanda/Dublin, 1854-1900).

Como se define de forma tangível, visível, concreta, a estética de uma alma? Pela genialidade de Oscar Wilde, um caminho na literatura.

Curiosamente imaginei uma personagem não composta neste romance a escutar Basil Hallward e então perguntá-lo: Mas como se pode harmonizar em uma pintura, em termos estéticos, duas categorias tão distintas?, mediante ouvir seu deslumbramento pelo que afirma sobre a beleza de Dorian Gray logo em seguida (L 498/3800).

A harmonia de corpo e alma em Dorian Gray se relaciona com o hedonismo que o próprio afirma sobre felicidade e prazer quando flerta com a duquesa a revelar que a primeira não lhe interessa, e a segunda é o que lhe importa (L 3269-3800) a compor o problema da falsa equiparação de beleza física com qualidades intangíveis de um indivíduo que, no caso de Dorian, reside em uma alma apodrecida pelo próprio ego, depravada, perversa, e que ganha uma versão genial do mito de Narciso, para dar uma nova dimensão literária ao engodo das aparências que enganam em uma inversão de sentidos que converge objetivamente ao que acontece com a pintura.

A pintura que vai se alterando na medida em que Dorian Gray manifesta seus valores, revela essa estética. Fiquei a imaginar essa lógica atuando na atual epidemia de narcisismo que as redes sociais e os status do WhatsApp revelam.

Então, quando a atriz Sibyl Vane comete suicídio, apaixonada por ele, ao ter abandonado a carreira e por isso ser rejeitada por ter deixado de ser o que, para Dorian, era o que a deixava bela (capítulo 8), a crueldade que se reflete na rápida e fria “superação” do protagonista surge com um sorriso com um toque macabro na pintura que desnuda sua verdadeira índole.

Dorian celebra sua eterna juventude sem se importar com a própria devassidão que vai transformando a pintura em um horror, enquanto seus atos são irreparáveis, sendo o ápice, o irônico assassinato do pintor que a produziu, uma espécie de metáfora para refletir seu profundo desespero de narcisista.

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