Imagem: Recanto do Poeta

“Onças vermelhas ou fulvo-pardas — os Leopardos sertanejos. Tudo isto, para cumprir o que profetizara da minha Epopeia um excelso Vate brasileiro, quando cantou assim:
‘As Pedras desabrocham solitárias,
de Arquitetura esplêndida e fantástica:
são-lhe, Bromélias, rubros Lampadários.
E, por vida inda dar-vos, Leopardos,
vivo-escarlates e indolentemente,
os Guarases, à luz do Sol, traçavam
a Coroa do Sangue Espanadante.'”
Obra: Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. Folheto LV. De Novo a Cavalgada. José Olympio, 2013, Rio de Janeiro. De Ariano Vilar Suassuna (Brasil/Paraíba/Parahyba do Norte, atual João Pessoa, 1927-2014).
Identificar o gênero desta obra-prima logo se revelou um exercício complicado de tentativa de mínima compreensão da genialidade de Ariano, na medida em que me desvelou um antológico encontro do popular com o erudito.
Então “que fique como romance”, entendi, como pensou Rachel de Queiroz, “este livro tumultuoso de onde escorre sangue e escorrem lágrimas” (p. 13).
Também pensei em outro gênio no trato da língua portuguesa, Guimarães Rosa, mas logo depois o romance inovador de Ariano também se mostrou essencialmente grandioso e diverso, apesar de envolver rincões e tratar de personagens que simbolizam a imensidão de uma riqueza cultural muitas vezes desconhecida pelos padrões da vida urbana de um Brasil caricaturado, enquanto em estilo de folheto, há em Ariano uma construção inspirada que exala um tipo de realismo estilizado sobre o folclórico, enquanto Guimarães Rosa molda seus contos por invenção própria que se mistura ao cenário. Em Ariano se reconta com outro requinte, igualmente belo, o que está entranhado no seio popular em personagens remontados, mas não totalmente inventados.
No caso da Cavalgada (p. 365), a indagação sob certo espanto trabalhado entre personagens:
– E é verdade tudo isso? Todas essas roupas fidalgas, essas bandeiras, essas onças, esses acontecimentos estranhos, tudo isso é verdade ou é “estilo régio”?
Os ciganos, a fotografia da estrada, a descrição da passagem dos cavaleiros, as vestimentas, a morte do Cantador Pedro Ventania, engolido por uma jiboia, a efusão dos bichos da terra, o “Donzel errante que era o Rapaz-do-Cavalo-Branco”, e a comparação com os anjos celestiais, remetendo a versos do “Bardo brasileiro”, Álvares de Azevedo (p. 367), em um cenário que se encerra com outro, por Augusto dos Anjos (p. 368):
“Quem foi que viu a minha Dor chorando?
Saio. Minha Alma sai, agoniada!
Andam Monstros sombrios pela Estrada,
e, pela Estrada, entre esses Monstros ando!”
É um “reconto erudito”, uma releitura de fatos e histórias de um povo no mundo nas profundezas da alma brasileira, no sertanejo alcançando os limites do imaginário popular.
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