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Nietzsche

“O que exijo do filósofo é que se coloque além do bem e do mal, que ponha sob si a ilusão do juízo moral.”

Obra: Crepúsculo dos Ídolos. Aqueles que querem tornar a humanidade “melhor”. 1. Nova Fronteira, 2017, Rio de Janeiro. Tradução de Edson Bini e Márcio Pugliesi. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

Para o meu filósofo marrento preferido, “não há fatos morais” (p. 57) e o que é chamado de “moral” é uma tentativa ignorante de melhoria do ser humano, tendo em comum com o juízo religioso a crença em realidades que não existem, tratando-se de “linguagem de signos, uma sintomatologia” (p. 57).

No final de 1995 o que está sucintamente descrito acima me foi apresentado em trechos desta obra em um grupo de estranhos universitários de diferentes instituições que paravam para conversar sobre filosofia (além de poesia) em um tipo de colóquio informal. Lembro-me de como minha reação surpreendeu quem ensaiava um estilo de vida no “amor fati” e acreditava ser algo intragável apenas com base em minha fé religiosa enquanto sujeito que soava “moralista”.

Colocar-se além do bem e do mal é para filósofos, na visão de Nietzsche – ouvi na ocasião, o que concordei – é um chamado radical que não se destina a quem prefere viver seguindo alguma cartilha religiosa ou não. Então me vi inserido de forma íntima na questão, pois não sou adepto de cartilhas, nem tendente a me fechar em algum sistema, apesar da fé, mas isso não significava, nem um pouco à época, que eu não tinha enorme interesse em saber de forma mais depurada, filosófica, o que precisava ser feito e o que deveria ser refutado na vida em todos os sentidos possíveis e em funções de princípios. Nietzsche não chamaria isso de “moral” – contra argumentaram parecendo firmar comigo uma provocação – na sua intrigante insistência de transmigrar valores.

Resta saber quem teria coragem de viver além do bem e do mal em termos de recusa da moral e de qualquer ideia de domesticação da nossa espécie como intenção de melhoramento (p. 58), isso posto antes de eventuais candidatos se apresentarem na sala – prosseguiu-se outrem na ocasião em tom provocativo – cabendo antes separar a categórica afirmação de Nietzsche do problema da moral tão-somente na forma de discurso, para não se perder na tal importância da diferenciação referida.

Desconfio que frustrei, no bom sentido, quem tinha uma imagem definida de mim como um sujeito “fechado” enquanto terminei mais integrado ao grupo, principalmente quando argumentei que minha vida religiosa em igreja evangélica batista me mostrou o quanto a moral nesse ambiente muitas vezes se revelou como algo que não passava de retórica vazia, sendo de fato a moral coisa falsa, o que fez quem costumava me provocar, mencionar o que Nietzsche define sobre a atmosfera cristã: “de cárcere” (p. 59), enquanto tal constatação não anulava a exigência pragmática de se saber o que realmente importa de ser feito e o que cabe ser evitado ou até mesmo combatido nos juízos tomados na complexidade do mundo da vida. Tal discrepância na aplicação da moral também pode ser facialmente observada na vida doméstica, nos negócios, nos relacionamentos afetivos, profissionais e, por excelência, na atividade política.

Essa experiência de discussão desimpedida marcou o início de meu grande interesse por Nietzsche e me despertou sobre as incongruências dos ideais de tornar nossa espécie “melhor”, não apenas no sentido moral, mas por interesses amplos e obscuros por quem exerce determinado domínio ou influência, no entanto, Crepúsculo dos Ídolos seria lido na íntegra apenas nove anos depois, no oportuno tempo do seminário teológico.

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