Imagem: Stille Nacht Museum

Joseph Mohr

“The Mass made a deep impression on Joseph and inspired him to write his own Christmas carol, known in English as “Silent Night, Holy Night” one year later. He wrote it with a guitar accompaniment so that it could be performed at any time and in any place. In keeping with his motto, “Whatever you did for one of the least of my brethren, you did for me”, he may also have been thinking of the people who could not come to church as the snow was too deep or because they were ill, or those who were not allowed to enter the church such as Protestants, divorcees, and other marginalised groups.”

Obra: The life of Joseph Mohr & the history of the origin of the wold-famous Christmas carol “Silent Night! Holy Night!”. Wrangelstr. 93, 10997 Berlin. De Hanno Schilf.

Sobre a história por trás da canção Noite Feliz – por Leonardo Amorim

O Natal, penso, é um momento de inspiração para histórias de vida que ilustram o espírito da celebração.

O autor de Noite Feliz, Josephus Franciscus Mohr (1792-1848), ainda estava no ventre quando o pai, um soldado, abandonou Anna Schoiber, que terminou como mãe solteira e o teve para formar uma família incomum e desprezada ao extremo, seguida por mais dois irmãos igualmente “ilegítimos” ou fora do matrimônio (p. 5).

Na cidade de Salzburg em 1792, mulher solteira com filho estava sujeita a uma pesada multa, a qual Anna Schoiber não tinha como pagar – e eram três infrações acumuladas – restando-lhe na insolvência o encarceramento, no entanto, algo incomum aconteceu: o menino Joseph foi adotado como afilhado de batismo pelo carrasco da cidade, Franz Joseph Wohlmuth, homem com histórico um tanto sinistro de quem “havia decapitado mais de 50 pessoas e torturado outras 100 para obter confissões” (p. 6). Wohlmuth queria melhorar sua imagem perante a população e além de se tornar padrinho de Joseph, pagou a multa de Anna Schoiber.

Para evitar constrangimentos, Wohlmuth não compareceu ao batismo; enviou Franziska Zachim, sua cozinheira. E então o menino Joseph juntaria a condição de afilhado do carrasco ao fato de ser filho de mãe solteira, em uma sociedade que punia severamente quem se encontrasse nessa situação e colocava à margem a criança, de maneira que não seria aceita em nenhuma escola, tampouco teria alguma chance de um emprego como aprendiz (p. 6).

Sem escola e sem perspectiva de aprender um ofício, Joseph cresceu vendo barqueiros transportando sal pelo rio das minas de Hallein, até que em um belo dia, pelos degraus íngremes de pedra atrás do Steingasse 9, Nepomuk Hiernle, um monge beneditino ouviu o menino a cantar e ficou impressionado com o seu talento. Hiernle foi até a mãe de Joseph para encaminha-lo aos estudos em uma escola de elite, a St. Peter Stift, onde o menino foi integrado ao coro: aos 12 anos de idade ele tocava violão, órgão e violino (p. 7).

Na época Hieronymus von Colloredo era o arcebispo de Salzburgo, homem de mentalidade um tanto liberal que rezava algumas missas mais simples em alemão, o que lhe rendeu acusações de conluio com protestantes em um país dividido com o luteranismo. Colloredo decidiu possibilitar “aos jovens talentosos musicalmente o direito de frequentar a universidade e o seminário sacerdotal”, e foi com esse benefício que Joseph foi estudar filosofia, teologia e retórica na universidade beneditina em Kremsmünster, por conta da invasão bávara em 1808. Retornou em 1811 a Salzburgo onde concluiu o seminário e foi ordenado padre, sendo direcionado a casa paroquial de Mariapfarr onde conheceu o seu avô que lhe apresentou a tradições pré-cristãs na paróquia (p. 8). A tolerância com o paganismo proporcionou ao catolicismo romano um restabelecimento na cidade após um período de predominância protestante.

O jovem padre Joseph recebeu em Mariapfarr uma forte influência da cultura local que envolvia a liturgia. Instrumentos como flauta e violino, além de missas no vernáculo, formando uma espécie de antecipação de algumas mudanças que ocorreriam no Vaticano II cerca de 150 anos adiante. O fato é que foi neste ambiente liberal, bem mais acolhedor à cultura local, com um missa contextualizada com os costumes do povo, que o padre Joseph encontraria inspiração para escrever Stille Nacht, em inglês “Silent Night, Holy Night” (p. 9) que se tornaria mundialmente famosa e no Brasil receberia a tradução de “Noite Feliz”.

Silent Night, Holy Night foi composta originalmente em violão para que fosse popularizada. Em um tempo de guerras napoleônicas, a canção foi inspirada por um ideal de inclusão para alcançar pessoas que não podiam ir à missa, de enfermos a grupos marginalizados que não tinham permissão para ingressar na Igreja, incluindo protestantes e divorciados (p. 9).

Um outro aspecto de Silent Night, Holy Night diz respeito ao contexto de turbulências com o saque dos bávaros em Mariapfarr logo após um acordo de paz assinado em Munique. A letra parece celebrar um “sentimento de libertação” nos versos quatro e cinco, quando “se afasta da cena da natividade para falar de Jesus reunindo todos os diferentes povos em seu abraço de perdão para todo o mundo”, afirma Hanno Schilf (p. 10)

A história da composição se liga a cidade de Oberndorf, para onde o padre Joseph foi transferido, por ter um clima ameno por conta da recuperação de uma tuberculose. O jovem padre seguiu no propósito de realizar missas em alemão sob uma musicalidade mais íntima do povo, o que gerou um conflito com o veterano e tradicionalista padre da paróquia, Georg Heinrich Nöstle, que não gostava de ver missas sem o latim e com uma inserções litúrgicas fora do comum. Nesse embate prevalecia o jovem padre Joseph, popular, carismático, enquanto reformador da música sacra, além de bom pregador com suas missas tendo frequência excepcionalmente alta (p.11), apesar do opositor explorar o fato de Joseph ser filho de uma relação fora do casamento e de ter como padrinho um carrasco.

Então vem a história do Natal de 1818, quando o órgão da Igreja quebrou e o padre Nöstle precisou contar com a ajuda do padre Joseph e de Franz Xaver Gruber, quando pela urgência foram trabalhados elementos incomuns para a missa. Com uma cerimônia no estilo de Mariapfarr com instrumentos tradicionais e uma mistura de cantos alemães e latinos, Silent Night, Holy Night foi tocada sob um arranjo de Franz Xaver Gruber para acompanhamento do coral. O estilo musical deixou a congregação “profundamente comovida com a missa e especialmente com a simplicidade e beleza da canção de Joseph. Até mesmo o coração do padre Nöstler foi tocado e os dois padres se reconciliaram temporariamente” (p. 12). Neste evento há uma controvérsia sobre o ano em que a composição Silent Night, Holy Night foi produzida, mediante a descoberta em 1995 do único manuscrito escrito à mão por Joseph Mohr, com data de 1816, o que levou a uma revisão da história por trás da autoria da música conhecida em todo o mundo, no sentido de ter sido inicialmente feita na Steingasse 9 de Salzburgo e não na famosa missa de Natal de 1818 em parceria com Gruber.

Os padres Joseph e Nöstle voltariam a se desentender, e como consequência o inovador austríaco da música sacra passaria por 11 paróquias, o que de certa forma ajudou ainda mais a divulgar seu trabalho, até ficar responsável por sua própria, em Hintersee (p. 12), onde criou um fundo escolar para que crianças pobres frequentassem a escola. Nos tempos de sua paróquia derradeira, costumava “beber uma cerveja e, depois do segundo copo, às vezes pegava o violão e tocava uma ou duas músicas de sua autoria”.

Por trás da história da composição de Noite Feliz ou, originalmente, Stille Nacht, penso na trajetória do autor, que fora um menino onde muitos diriam “sem futuro”, filho de mãe solteira, criado em uma família desestruturada, apadrinhado por um carrasco, tipo do mais indesejado na sociedade à época, mas que ganhou um novo rumo quando virou alvo de uma tradição da Igreja desde seus primórdios – acolher marginalizados – vindo a se tornar padre e compositor que entrou para a história da música e da fé, a refletir uma cifra de como opera o amor de Deus para um mundo que parece indiferente ao verdadeiro espírito do Natal.

Não me surpreende que o padre Joseph tenha preferido uma vida simples e assim morreu pobre em Wagrain, 4 de dezembro de 1848.

2 Replies to “24/12/2025 08h00 The life of Joseph Mohr & the history of the origin of the wold-famous Christmas carol “Silent Night! Holy Night!””

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