Imagem: Brown University

Judson Brewer

“Meu momento eureca no consultório em 2014 foi perceber que quem luta contra padrões alimentares não saudáveis precisa conseguir interromper seus ciclos de hábitos e reaprender a prestar atenção no corpo e na mente. […]”

Obra: Desconstruindo o hábito da fome. Capítulo 4. Sextante, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Beatriz Medina. De Judson Brewer (1974).

Desconstruir hábitos alimentares não saudáveis pode ser um processo longo, lento e gradual e a chave reside na atenção plena ao corpo e à mente, penso em relação ao capítulo (p. 57), mas aprendi na pele que pode ser um tanto abrupto, porém sem ser violento com o corpo, por uma boa consciência.

Não faz sentido para mim um programa de reeducação alimentar que estabeleça restrições sem a transformação endógena do paciente, sem uma consciência consolidada não por um esquema nutricional a ser cumprido, de fora para dentro. Acredito no valor superior da reeducação íntegra, autêntica, de dentro para fora, por uma compreensão profunda sobre o que está acontecendo com o corpo e suas implicações mediante o padrão de alimentação inadequada, seguida de uma consciência da necessidade de mudança que se atrela a uma concepção renovada da própria existência. Saber os alimentos que prejudicam o corpo vai muito além da necessidade do emagrecimento; diz respeito a uma sintonia necessária da nova visão que se tem da vida com o corpo que a viverá, o que responde ao questionamento do autor sobre o porquê de mudar os hábitos alimentares se tornou importante (p. 59).

Não vejo o emagrecimento como um objetivo principal, e até mesmo em uma escala de relevância, não se situa nas maiores, mas se trata de um desdobramento de algo maior. Neste livro, o autor e neurocientista propõe 21 dias para iniciar a desconstrução por meio da consciência. Não o apliquei, porém, essencialmente, o que venho passando reflete muito do conteúdo proposto, sobretudo em relação ao mindfulness.

Ficar atento ao corpo e à mente para guiar as decisões alimentares é um caminho cuja evidência se relaciona com o bem-estar em relação aos novos hábitos. Não se trata de uma revolução no sentido dado na política – radical -, sem amadurecimento do que se realmente deseja para a própria vida. Se há fome autoinfligida, descontentamento e desejos que se apresentam intensos e irresistíveis para os velhos hábitos, são sinais de que o nível de consciência para a mudança da atenção plena ainda não foi alcançado, em contraste com a mente transformada (μετάνοια) que opera em harmonia para ver, reconhecer, analisar e simplesmente decidir pelo que se aprendeu em favor do saudável, vindo a ser capaz de declinar os velhos hábitos, sem pesar, nem moralismo sobre o que não a envolve , especialmente em quem os prefere.

Essa consciência como fruto do processo de transformação, aponta o autor, envolve (p. 60):

  • Gostar de alimentos saudáveis
  • Comer quando sentir fome e parar quando estiver saciado, abandonando a turma do “prato limpo”, ou seja, não comer somente porque há comida no prato, sendo capaz de escutar quando a mente disser que o necessário foi atingido
  • Ter saúde independente do peso ou do tamanho do corpo
  • Para de petiscar sem pensar, cuidar das emoções e de si sem recorrer à geladeira
  • Comer com intensão e não por compulsão/impulso

Não é preciso fazer muito esforço para perceber que remédios para emagrecimento representam o contrário dessa proposta. Não tratam a causa, apenas os sintomas.

A atenção plena voltada ao corpo proporciona muito mais que uma revolução alimentar. Na medida em que se compreende melhor o conceito de “corpo”, é natural que hábitos saudáveis não alimentares sejam incluídos sob o mesmo prisma que vem com espontaneidade, sem provocar afobação, cansaço ou qualquer condição em que as mudanças ficam sem sentido. Então não se deve ficar surpreso se durante a revolução alimentar surgirem práticas esportivas, artísticas ou quaisquer outras que façam uso mais intenso da intelectualidade e da espiritualidade.

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