Imagem: Jornal Opção

Otto Maria Carpeaux

“Donde esses mal-entendidos? Nietzsche não é um autor difícil. [..]”

Obra: Ensaios Reunidos. Volume I. 1942-1978. A Cinza do Purgatório. Terceira Parte: Julgamentos. Nietzsche e as consequênciasTopbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).

Difícil a quem prefere se pautar por aparências é o que Nietzsche tratou: o niilismo. Talvez tenha sido por isso que o filósofo do martelo fora “o inimigo mais furioso que o cristianismo jamais teve” (p. 247), e não, per si, em relação à leitura grotesca de encerrá-lo como um radical ateísta.

Nietzsche foi poeta no espírito do humanismo da “velha Alemanha”, “cheio de Goethe” com dosagens do pessimismo de Schopenhauer e assim se deu filologicamente caminhante nas “profundezas da existência humana”, arauto por “diagnoses da decadência e do niilismo da civilização moderna” (p. 247), mas também foi filósofo em uma união bastante rara, aponta Carpeaux. Associando-o a um profetismo, remete-me novamente ao que penso sobre o “arauto”, um conceito que aprendi no desdobramento do que estudava como um pensador da práxis, face ao que define o crítico literário acerca de “uma verdade existencial a proferir” (p. 248).

O “Deus está morto!” vejo como uma profecia de um desmantelamento do absoluto, porém não compreendida no tempo em que foi anunciada; o niilismo se manifestou no homem moderno em um nível de liberdade até então contida. O assassino ou o “louco” em A Gaia Ciência, é o humano que perdeu o medo de virar as costas para o céu, se bem que um tanto disfarçadamente, e fincou-se tão-somente na terra, deslumbrado com o que entendera como progresso concomitantemente esvaziado do que predominou da dita “idade média” – o absolutismo em forma teísta, embora mais teatral do que qualquer outra coisa- e seguia em sua contradição, de forma mais intensa e categórica, a fingir estar em direção contrária ao que destruiu e sepultou.

Em certo sentido Nietzsche denunciou a hipocrisia de quem matou Deus enquanto fazia de conta adorá-lo, o que também denota seu profetismo que desnudou as mazelas do bojo cristão, eis o que entendo quando Carpeaux o define como um sujeito de “alma cristã, mal disfarçada”, pois se trata de uma busca pelo genuíno, autêntico e inevitavelmente incompreendido na luta, do que associo, entre “o cristianismo da alma e o atavismo pagão” (p. 249). Aqui penso em O Anticristo [686]:

“Volto atrás, para relatar a verdadeira história do cristianismo. A própria palavra “cristianismo” é já um equívoco – no fundo só existiu um cristão e esse morreu na cruz.”

E o que dizer então do mausoléu em A Gaia Ciência [687]?

Conta-se também que no mesmo dia, o homem louco irrompeu em várias igrejas e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam Deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, senão os mausoléus e túmulos de Deus?”

E torno a Carpeaux em uma síntese que considero bem apropriada:

“Nietzsche, o anticristo, fala como cristão a cristãos que já não o são” (p. 250).

686. 24/08/2022 00h02

687. 28/10/2026 19h40

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