Imagem: University of Exeter

Ilan Pappé

“[…] Gaza é uma cidade como qualquer outra no mundo, mas, para os israelenses, tornou-se uma cidade cenográfica onde os soldados testam suas armas mais recentes e avançadas.”

Obra: A Maior Prisão do Mundo. 12. O modelo definitivo de prisão de segurança máxima: a Faixa de Gaza. Elefante, 2025, São Paulo. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. De Ilan Pappé (Israel/Haifa, 1954).

Quando o ateísmo estava processado em um ambiente familiar judaico tradicional, lá pelos idos de 1995, havia um ano conhecido o mais marcante colega de graduação em economia, o velho BG que, após uma intensa aula de psicologia (que mais parecia uma terapia coletiva), decidiu comunicar a seus pais sobre sua homossexualidade. Com independência financeira, a consequência traumática daquela conversa [688], pela figura paterna (médico-cirurgião no Recife, muito prestigiado e um tanto ortodoxo) não lhe trouxe muito transtorno. BG tocou a vida, deixou a casa donde fora criado, foi viver com o namorado, disse aos pais que jamais moraria em um assentamento de Israel (como queriam), mesmo estando à sua disposição um endereço distinto dentro de um condomínio fechado de alto padrão em um investimento da família.

O nível de professores e colegas de sala me atestaram a melhor decisão que tomei como estudante: graduar-se em ciências econômicas e não em contabilidade. Creio que bem aproveitei e ainda naquele 1995 eu era por demais ingênuo sobre a Questão Palestina, e foi o BG que me apresentou autores fora da narrativa sionista [689]:

Conversas e leituras foram se tornando cada vez mais interessantes e não demorou muito para que eu descobrisse que o Estado de Israel foi um estágio de um processo longo, imposto inicialmente com a conveniência dos ingleses mediante um mandato que começou em 1920 na região, e preparou o caminho para facilitar os planos sionistas (p. 230). Ainda naquele 1994, meu colega judeu me apresentou uma obra em inglês intitulada Expulsion of the Palestinians. The Concept of “Transfer” in Zionist Political Thought 1882-1948, de Nur Masalha [621], para explicar como as terras foram desapropriadas dos palestinos, onde tomei conhecimento do Jewish National Fund (JNF), mas pediu para que eu mesmo a conferisse, junto com outros materiais que me indicou para que fosse possível desenvolver com dados mais precisos minhas próprias conclusões.

Ouvi pela primeira nomes como Edward Said, Illan Pappé, Nur Marsalha e Anne Arendt. Em outras palavras, muito do que aprendi naqueles anos sobre o drama palestino veio por um judeu de nascença, ateu, gay, culto, poliglota, que tinha estudado na adolescência em Telavive e dava risadas quando lhe acusavam de “antissemita”. Até o termo “semita” – dizia BG – é uma indevida apropriação de sionistas (os quais ele gostava de chamar de “sociopatas usurpadores de terras”), isso posto porque os árabes também são de origem semita, mas a narrativa alienante pró-Israel prevalece sobre um termo indevidamente restrito a judeus. Considerando o contexto, por coerência, BG não deveria mesmo ter ido morar em um assentamento judaico.

Doze anos se passaram e, entre atualizações por e-mail, recebo a notícia do velho BG contando que finalmente conseguiu “entrar em Gaza” (um ideal que escutava desde quando o conheci). Foi através de uma instituição humanitária em uma excursão altamente arriscada; não tinha conseguido resistir ao chegar em Israel no ano anterior ao conhecer a oportunidade para atuar como voluntário e conferir com os próprios olhos o que conhecia por livros e artigos de estudiosos não sionistas. Naquele final de 2007 a situação em Gaza estava complicadíssima, o Hamas tinha vencido a disputa com o Fatah (grupo ligado à Autoridade Nacional Palestina e ao presidente Mahmoud Abbas) havia seis meses. O repasse de alimentos, medicamentos e a acomodação de profissionais de saúde, educação e suporte operacional incluía no pacote o iminente risco de morte aos envolvidos. BG tinha ingressado em uma ONG religiosa para dar aulas de informática (por seus dotes de programador e analista de sistemas) a adolescentes. Nas “horas vagas” colaborava na logística de distribuição de alimentos, onde podia andar por Gaza City e observar a catástrofe.

Quase um mês depois recebo um e-mail com uma frase curta:

– É mesmo uma prisão a céu aberto, Pappé está certíssimo!

Quando os colonos judeus foram retirados de Gaza, a Faixa ficou hermeticamente fechada, gerando um confinamento. O Egito a tinha rejeitado desde 1967 e, por pesquisas, a maioria dos israelenses passou a acreditar que se tratava de um “Estado palestino independente, cuja fundação fora generosamente permitida pelo Estado de Israel” (pp. 333-334). Para o historiador israelense persona non grata entre sionistas militantes e alguns cristãos protestantes sem noção, a Faixa de Gaza se tornou modelo para os mandatários do Estado de Israel implementarem uma definitiva prisão de segurança máxima, cuja idealização é descrita em detalhes neste capítulo, além de testar armamentos e procedimentos em uma cidade que, para o aparato estatal israelense, tornou-se “cenográfica” (p. 329), voltada para o aperfeiçoamento de práticas de guerra que não poupam civis, tendo como consequência o “aumento gradual do genocídio de Israel contra a Faixa de Gaza” (p. 334).

A decisão de remover os colonos judeus de Gaza (2005) teve um desfecho péssimo para Israel e para os palestinos em Gaza que deram a vitória eleitoral ao braço político do Hamas, elevando-o ao poder (2006), evento seguido pela derrota de Israel para o Hezbollah (2006) no sul do Líbano, a considerar que os objetivos principais dos israelenses não foram alcançados, quando então o exercito de Israel passou a concentrar suas forças punitivas contra “1,5 milhão de pessoas que viviam nos quarenta quilômetros quadrados mais densamente povoados do planeta” (p .331). Quando BG chegou em Gaza no final de 2007, estava diante de um cenário de terra arrasada com uma população civil ainda aterrorizada, tentando retomar a vida desde o ano anterior, com vítimas cujos parentes foram assassinados por tropas israelenses em retaliação ao fracasso no Líbano:

Naquele mês (setembro de 2006), os ataques israelenses na Faixa de Gaza mataram em média oito palestinos por dia, muitos dos quais eram crianças. Centenas ficaram mutilados, feridos ou paralisados” (p. 332).

– O que fez o Estado de Israel é imperdoável – escreveu BG em abril de 2008, na única frase do último e-mail enviado antes de deixar Gaza.

688. 17/10/2025 21h51

689. 08/08/2026 16h00

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