Imagem: ABL

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão: começa a suspeita que é um continente.”
Obra: O Alienista. IV. Uma nova teoria. Planeta do Brasil, 2022, São Paulo. De Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1839-1908).
Estava ontem na Leitura do Shopping Recife, maravilhosamente cheia, quando, em uma banca de clássicos com preços populares (coisa que me traz esperança na humanidade), veio-me esta edição de uma obra que me remeteu, inicialmente ao tempo do ensino médio e, de forma marcante, por lembranças de meu psi que me fizeram sorrir como um menino olhando para o exemplar, despertando a curiosidade do vendedor.
De estudante-paciente, lá pelos idos de 1997, a colaborador freelancer de suporte em TI na organização de planilhas e bancos de dados em pesquisas psiquiátricas até 2014. O contato com uma impressionante variedade de sinopses de quadros e casos clínicos psiquiátricos, resultava constantemente em conversas breves e inspiradoras sobre alguma que me deixava mais perplexo.
– No começo da residência até me senti um pouco como Simão Bacamarte – dizia naquele tom espirituoso que sempre pautou nossas conversas. Aprendi nesse meio a designá-lo de “psi” carinhosamente por conta das concomitantes atribuições: psiquiatra, psicanalista e psicólogo terapeuta, pois precisei – por caridade – do “professor três em um”, sem pagar um tostão, submetendo-me a técnicas que precisavam sair das abstrações em teses de doutorado que lhe pareciam mais apropriadas ao meu caso.
Achei que ser cobaia seria pouco e então decidi, livre e espontaneamente, ceder minhas especialidades em programação, além de que me fora reconfortante a consciência do simples fato de não estar enquadrado na ilha de Bacamarte que, em sua nova teoria (p. 49), virou continente na famosa “Casa Verde”, com todas as suas minúcias elevadas a um grau que deixou Itaguaí em estado de alerta sob o que não fica restrito à ilustração na ironia fina do gênio e “Bruxo do Cosme Velho”, dada a imensidão da loucura que vagueia nos quatro cantos do mundo.
– Ela é sedutora (a loucura), sempre flerta conosco alguns segundos diariamente – falou com aquele ar sério que fazia as pessoas sorrirem, isso bem antes da ideia romantizada em We Bought a Zoo (2011). Nunca me esquecerei das risadas que dei no gabinete quando decidiu resenhar Elogio da Loucura, aproveitando que eu tinha me tornado seminarista protestante para falar um pouco sobre Erasmo de Roterdã, isso lá pelos idos de 2004, quando abriu aquele singelo momento com a citação:
“Ora, se me excluirdes da sociedade, não só o homem se tornará intolerável ao homem. como também, toda vez que olhar para dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de ser o que é, de se achar aos próprios olhos imundo e disforme, e, por conseguinte, de odiar a si mesmo.”
Que fiquem nos anais: não poderia ter sido outro trecho como o primeiro a registrar [691] desta obra neste espaço.
691. 28/06/2022 00h20