Imagem: Diocese de Taubaté

Padre Fábio de Melo

“[…] quando movidos pelas consequências dos sofrimentos não curados, tornamo-nos o algoz de muitos outros.”

Obra: A hora da essência. M Planeta, 2021, São Paulo. De Fábio José de Melo Silva (Brasil/Minas Gerais/Formiga, 1971).

Mais um ponto de destaque na obra que mais me ocupei em refletir no final da pandemia. O diálogo entre a enfermeira Ana e a paciente terminal Sofia é enriquecido com a inserção da personagem Carmela, cabeleireira convidada por Ana (p. 171) para arrumar o cabelo de Sofia (p. 170) que ganhou uma transferência para “uma casinha simpaticíssima que fica de fora do hospital, mas num local que a ele tem ligação” (p. 160), onde foi improvisado um salão de beleza no alpendre (p. 173).

A “naturalidade das ofensas” (p. 173) entre Carmela e Ana pauta o tom espirituoso em que as três mulheres conversam, especialmente na parte em que as três mulheres falam sobre o que não apetecia ao ex-marido de Sofia passando a pautar o que será feito no novo visual capilar da paciente (pp. 172-173).

Ana e Carmela seguem em suas funções e conversam o que diz respeito somente a elas. Sofia fecha os olhos; agrada-lhe receber aqueles cuidados, e não não pensa recordar o que viveu, mas “inventar memórias, passados, recordações” (p. 174), a lembrar-me do neologismo “anemoia” [690].

“A morte, mesmo quando assistida, nunca é um dom partilhável” (p. 175) pensa Sofia em relação ao seu ser indiviso, incapaz de sair de si, retornando ao início, à primeira fase da vida, sem ser com os outros, voltando-se para si, condição a qual precisará para morrer enquanto se imagina em uma praia, sozinha, com um mundo próprio a lembrar o quanto a música do mar, no movimento de vaivém, corre em paralelo ao trabalho de Carmela.

Sofia é interrompida em sua “viagem” por Ana, que notou algo diferente; parecia em transe psicológico (p. 176); a paciente filósofa se sente inteiramente em si, consciente, sem que nenhuma parte estivesse alienada, sem a ânsia que tantas vezes a privou “de absorver a beleza do vivido” (p. 177). Então Ana e Carmela retomam o diálogo com Sofia sob o pano de fundo da hilária história de como Carmela se tornou cabeleireira (pp. 178-179), vítima de uma relação tóxica cujo marido machista a impedia de se desenvolver. Então Ana suscita o quanto o seu sogro era igual em relação ao que fazia com a sogra, e o que o marido aprendera com o pai, tornando-se “igual ao homem por quem tinha aversão” em uma corrente onde se repete com os outros o que tanto abomina ter sofrido (p. 180), cuja síntese reflete o contexto do trecho (p. 181) desta Leitura.

Sofia é impactada por mais uma lição de Ana ao se dar conta de tantas vezes que teve contato com uma maneira de pensar e o quanto esse entendimento derramado sobre ela é essencialmente mais volumoso que sua capacidade de suportá-lo, mas então percebe a hora da essência para se permitir “ao desmanche, a abertura de comportas”, e imagina se não se trata de uma experiência de catarse ao se dar conta do quanto esteve cega ao fazer do ex-marido uma extensão da vida que fracassou nela mesma (p. 181).

Meditei o quanto essa parte da obra me fez lembrar do meu velho psi que, ao me psicanalisar, desafiou-me a quebrar a corrente da repetição de traumas familiares codificados em meu inconsciente, os quais são comuns, fazem parte da vida de muitas pessoas, sendo a diferença fundamental reconhecê-los para conscientemente manter distância da repetição sobre os outros do jugo imposto por sofrimentos não curados, muitas vezes causados por pessoas tão próximas.

690. 13/09/2026 15h49

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