Imagem: El Español

Umberto Eco

“[…] quando l’amore si attarda troppo nel profondo del cuore, il corpo, privo de forza, deperisca.”

Obra: Baudolino. 34. Baudolino scopre il vero amore. La nave di Teseo, 2020, Milano. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).

Em Baudolino, de forma lúdica Umberto Eco se aprofunda na combinação de traços de um livro de história com fantasias de um conto [530] em causos de um mentiroso andarilho, naturalmente com elevado senso de humor e apurado sentimento; vai de sua burlesca vila a Paris, até o oriente, dos encontros com o imperador à paixão pela imperatriz; é um conselheiro, uma figura que canoniza Carlos Magno, um aprendiz de poesia que se descobre poeta, um felizardo que conhece o paraíso na Terra, resgata uma cidade com a vaca do pai e se encontra com uma mulher e um unicórnio.

Não poderia falta a descoberta do verdadeiro amor por este insólito personagem que parece ser um antepassado medieval de João Grilo ou Chicó, eternizados pelo mestre Ariano Suassuna. Convicto de que o amor perfeito não deixa espaço para o ciúme, cita “San Giovanni” para argumentar que não combina o temor e a mentira entre os amantes (Aa, p. 1203).

Eis um diálogo um tanto filosófico para um mestre de presepadas, e do senhor historiador Niceta, é respondido que o amor verdadeiro vive no triclinium [531] do coração, onde a fornicação não alcança por se nutrir apenas de fantasias de desejos (Aa, p. 1025). Então Baudolino se ocupa (e me passou uma ideia de curiosidade sutilmente mórbida) em ver como os verdadeiros amantes, desde o primeiro encontro, passam a ficar pálidos, trêmulos e emudecidos pela força de um sentimento que domina a natureza e a alma, paralisando o corpo e o espírito; a língua cessa de falar, os olhos de ver, os ouvidos de escutar, de maneira que o amor, a permanecer por muito tempo nas profundezas do coração, faz o corpo, sem forças, definhar (trecho, Aa, p. 1208), contudo, chega-se a um ponto em que o coração na agonia, “pela impaciência do ardor que prova, quase vendo sua paixão desaparecer de sua mente, permite ao corpo retomar as funções e então o amante fala” (Aa, p. 1208).

Baudolino então sai do que parecia uma sutil mórbida curiosidade e vai ás vias de fato com Ipazia (Aa, pp. 1211-1216). Descobre certas nuances eróticas do próprio corpo ao contar a Niceta em meio ao que recordara dos afagos com sua “amada”, cuja “natureza ferina” (Aa. p. 1216) revelou que “tinha a forma de uma cabra, e suas patas terminavam em dois cascos cor de marfim” (Aa. p. 1215). Baudolino se apaixonando por Ipazia é uma sátira (a amada é uma criatura metade mulher e metade cabra) pertencente ao povo dos Hipátias e descendente da Hipátia histórica.

A impressão que eu tive ao apreciar Baudolino, é que Umberto Eco, enquanto se aprofundava na experiência de obra aberta, divertiu-se bastante elaborando o romance.

530. 16/08/2024 22h10

531. sala de jantar formal em uma residência romana

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