Imagem: Nobel Prize

Martin Luther King Jr.

“Para Gandhi, o amor era um forte instrumento de transformação social e coletiva. Foi nessa ênfase de Gandhi no amor e na não violência que descobri o método de reforma social que estava procurando.”

Obra: A autobiografia de Martin Luther King. 3. O seminário Crozer. Zahar, 2014, Rio de Janeiro. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Editada por Clayborne Carson (EUA/Nova York, 1944). De Martin Luther King Jr. (EUA/Geórgia, 1929-1968).

Um recorte que começou com a edição em inglês sobre o período do seminário Crozer em que Luther King Jr. começou a se aprofundar nos ensinamentos de Gandhi [551].

Meu interesse pelo doutor King se deu em meados dos anos 1990, bem antes de ingressar no seminário (2003). Quando seminarista, notei que era frequente encontrar pastores e lideranças, quando não desinteressados ou indiferentes, um tanto avessos ao que entendo sobre o legado do doutor King. Escutava mais um “cuidado, foi liberal demais”, ou um “foi mais político do que pastor da igreja” e, claro, não faltou o tradicional “foi um comunista enrustido”.

Penso que o conceito de Satyagraha (p. 34) é a abordagem filosófica mais harmônica com o ensinamento apostólico sobre “amar os inimigos” e “oferecer a outra face”.

Afirma o doutor King:

“A satisfação intelectual e moral que não conseguira obter do utilitarismo de Bentham e Mill, dos métodos revolucionários de Marx e Lênin, da teoria do contrato social de Hobbes, do otimismo da “volta à natureza” de Rousseau, da filosofia do super-homem de Nietzsche, encontrei na filosofia da resistência não violenta de Gandhi” (p. 34).

Luther King Jr. certamente deve estar entre personalidades, penso, que mais receberam acusações por quem não tem familiaridade com a complexidade de seu pensamento. Foi um pastor protestante muito a frente do que a denominação religiosa a qual fez parte poderia oferecer em seu tempo, quando foi capaz de interagir com uma sabedoria oriental tão sofisticada em um meio religioso não tão acolhedor para esse tipo de filosofia.

Doutor King reconhece que sua criação se deu em uma “tradição fundamentalista bastante estrita” (p. 35), algo comum no meio batista. Afirma que as lições que aprendeu na escola dominical “eram de uma linha bem fundamentalista” e que nenhum de seus professores “jamais duvidou da infalibilidade das Escrituras. A maioria deles era iletrada e nunca tinha ouvido falar de criticismo bíblico”. E assim, como todo prendado menino de igreja, e com o acréscimo de ser filho de pastor, aceitava os ensinamentos como lhe eram transmitidos (p. 16).

Todo sistema religioso tende a ser fechado, mas o lugar comum de uma típica igreja evangélica de confissão batista tende um pouco mais com a peculiaridade de parecer coisa moderna, enquanto aos poucos pode dificultar uma visão mais abrangente e construtiva da fé cristã com questões sensíveis do mundo.

Obviamente, há exceções; nem toda igreja batista é um centro de crentes fundamentalistas, muito em parte pela descentralização de poder e hierarquia que um sistema de igrejas locais pode proporcionar. Imagino que foi por uma brecha dessa descentralização que foi possível sair um Luther King, junto com outro detalhe: no âmbito do seminário teológico, o jovem Luther King Jr. então afirma que viu seus “grilhões do fundamentalismo” sendo “arrancados” de seu corpo (p. 25). Eis um lado positivo de passar por uma instituição do tipo. Sem essa combinação, penso que seria impossível aproveitar a sabedoria de Gandhi e deixar para o Ocidente um legado genuinamente evangélico apostólico.

551. 15/04/2024 00h01

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