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de Frederick Sandys (1829–1904)
“É totalmente ocioso pretender dividir capacidades mentais e psíquicas altamente desenvolvidas, como o intelecto, a compreensão, a criatividade, a intuição e a empatia, em categorias sexuais; elas são simultaneamente masculinas e femininas; são humanas.”
Obra: Medeia: A Redenção do Feminino Sombrio como Símbolo de Dignidade e Sabedoria. Segunda Parte: Os graus da transformação do mito. Desaparece uma deusa. Cultrix, 2017, São Paulo. Tradução de Margit Martincic e Daniel Camarinha da Silva. De Olga Rinne (1946-2011).
Olga Rinne, autora de obras de referência sobre mitologia, segue no parágrafo seguinte a afirmar que se trata de outra questão o fato de “dependendo das correlações específicas da vida que condicionam os sexos, essas qualidades possam se manifestar de formas diferentes” (p. 99).
Quando penso no feminino como “sexo mais inteligente”, considero um contexto do sexo dominante, do domínio do masculino imposto durante milênios pela força sob aspecto bruto, pelo ideológico em torno do patriarcalismo e de tradições auxiliares, incluindo as de cunho religioso. Nesse parâmetro do macho, em algum momento, a mulher tomou maior consciência que teria que se determinar mais, em termos de sofisticação, intelecto e articulação, para simplesmente manifestar suas capacidades diante de um sistema unilateral o que, a mon vis, faz do evidente rápido desenvolvimento de sua ocupação nas sociedades, um sinal positivo à evolução da nossa espécie e aqui, penso, vejo uma aproximação com o que a autora afirma sobre a reabilitação da Grande Deusa (p. 100).
Em outras palavras, penso, em um ambiente em que o uso da força bruta é o que dá vantagem ao sexo dominante, o dominado, para tentar se restabelecer em condições iguais de humano, precisou encontrar outro caminho que, penso, o estimulou a ser mais inteligente.
O primeiro impulso para se dedicar com mais profundidade a Medeia, conta a autora na introdução (pp. 7-8), deu-se a partir de uma conversa em um pequeno grupo de amigas em um aniversário da filha de uma delas, quando uma das interlocutoras disse que colocou Medeia como segundo nome na filha, o que provocou até “estupefação incrédula” em função de uma figura mítica infanticida. Aqui penso o quanto pude constatar que conversas femininas tendem a ser mais “animadas”, digo, interessantes, provocantes, intrigantes, profundas, em comparação com as de origem masculina, e isso comecei a considerar desde que comecei a me entender por gente.
A tal “conversa de homem” sempre me pareceu mais rude, pouco atraente, não que entre mulheres não aconteça igual ou maior carência de sofisticação, sobretudo quando se aceita fazer o papel de objeto, mas, penso, há no feminino uma tendência maior ao desbravar delicado e ousado das intercorrências humanas, além de que, como vítimas do patriarcado, dado o sofrimento, é mais comum encontrar maturidade elevada entre mulheres, o que aumenta a probabilidade de uma conversa com o feminino ser algo bem mais interessante.
O desaparecimento da antiga deusa, “trouxe à nossa cultura mais prejuízo do que proveito” (p. 101), argumenta a autora, que menciona alguns problemas da modernidade, penso, diga-se de passagem, ainda muito patriarcal; a violência banalizada, a imaturidade no lidar com a morte, fixação histérica em manter a juventude, dando ao envelhecimento um lugar de enorme desprezo, a lembrar de Freud em Além do princípio do prazer (nota 7, p. 158), no problema do reprimido ser colocado para fora de forma simbólica, com o essencial não sendo lembrado como realidade (p. 102).
E Medeia acabou moldada no âmbito patriarcal, vindo também a representar um “falso mito”, um “clichê cultural” associado ao caos de morte e destruição como projeção do medo ao aspecto feminino (pp. 103-104) e aqui penso em uma reação política no sei cultural ao elemento de militância mais agressiva em prol da ocupação feminina mediante a imposição masculina, a citar o nipônico Godzilla, marco nos anos 1950, como “remanescente mítico” de Hécate tricéfala onde provavelmente nem os produtores estavam conscientes acerca de um dragão marinho compelido a voltar para o inconsciente (p. 105).
Esta obra terá diversos registros. Chamou-me a atenção como Olga Rinne discorre sobre a imagem que se estabeleceu a Medeia a partir do mito (Primeira Parte), notabilizada pela ajuda a Jasão na busca do velocino de ouro (p. 25) e como o seu espectro se firmou pela transformação do mito (Segunda Parte).
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