Imagem: Mises Portugal

“The disagreement on the question of socialist calculation was but a symptom of a larger dissent between Mises and his erstwhile comrades-in-arms.”
Obra: Mises: The Last Knight of Liberalism. PART IV MISES IN HIS PRIME. Mises and the Neo-Liberals. The Ludwig von Mises Institute, 2007, Auburn. De Jörg Guido Hülsmann (Deutschland, 1966).
Ludwig von Mises se tornou em 2007 a minha maior referência de liberalismo econômico clássico. Precisei rever muitos conceitos a partir daquele ano. Um pouco adiante percebi que as ideias dele, em comparação com a dos ditos “neoliberais”, revelava-me algo progressivamente conflituoso, tenso.
Os modelos de “economia regulada” pelo aparato o qual definia como sendo de “compulsão e coerção” em Human Action, além do Consenso de Washington (1989), posterior ao austríaco, mas dentro de uma visão de orquestramento de laços do mundo financeiro com os Estados, começavam a se parecer como os “instrumentos” em prol de um socialismo altamente camuflado.
Aponta o economista alemão, autor deste compêndio fluvial sobre o pensamento de Mises, que a discordância sobre o problema do cálculo socialista era apenas um sintoma de uma dissidência maior entre o maior ícone da Escola Austríaca (EA) e seus “antigos companheiros de luta”. Foi a ponta de um imenso iceberg. Sem pudor, Mises não apenas defendeu os princípios centrais da Escola de Manchester, já em descrédito geral à época, mas também os superou, a considerar que a ideia de um “sistema de terceira via” era “inerentemente instável porque não conseguia resolver os problemas que pretendia resolver e, portanto, motivava cada vez mais intervenção governamental até que o sistema intervencionista se transformasse em socialismo puro e simples” (p. 708).
Pensei então que o conceito de “terceira via” – entre as décadas de 1910 e 1920 – foi explorado pelos fascistas juntamente para angariar apoio entre liberais que não pensavam mais como a mentalidade dos clássicos, para fixar o Estado no centro gravitacional da economia enquanto se tolerava a propriedade privada dos meios de produção, em diferenciação com o lado extremo do comunismo, e a outra extremidade capitalista: o laissez-faire do século XIX.
Quando comecei a ler Mises, notei que o primeiro ponto se deu no repensar de meu conceito de “socialismo”. Mises, ironicamente, soou-me como um novo e mais bem elaborado intérprete do “Estado transitório”, conceito para definir socialismo rumo ao comunismo, proposto por Lênin em O Estado e a Revolução, que fora uma interpretação bem metódica sobre a colcha de retalhos deixada por Marx e os marxianos, enquanto ampliada por marxistas.
Não havia meio-termo na leitura de Mises; eis um pensamento que me deixou perplexo naquele ano. Pensadores como Hayek, Machlup, Haberler, Robbins, Perroux e Röpke, citados pelo autor, seguiam na ruptura da ideia do governo na economia como elemento “onipotente”, porém, foram bem mais comedidos (p. 709) em relação ao retorno do liberalismo proposto por Mises, o que acabou inspirando a futura ala libertária da EA.
Mises não foi anarquista ou libertário, no sentido de defender a extinção do Estado, entendi. O aparato estatal para ele era necessário para proteger os indivíduos de violações e dar guarida ao meio privado, quando necessário o uso da força e da coerção. Todavia, ao esmiuçar a inviabilidade do socialismo na falta de “cálculo econômico”, por uma consistência lógica de sua típica honestidade intelectual, o sábio judeu seguiu o caminho do “capitalismo absoluto” e, de uma forma mais sintética, essencialmente, concluiu que “a sociedade só era viável na medida em que os direitos de propriedade privada fossem respeitados, e ponto final” (p. 708).
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