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“Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo. […]”
Obra: O Estrangeiro. Parte II. 4. Record, 2019, Rio de Janeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. De Albert Camus (Argélia/Dréan, 1913-1960).
Retorno a este romance que me fez pensar Meursault inicialmente associado ao meu primeiro mentor [554], não na narrativa do assassinato cometido sob um sol escaldante e um árabe com uma faca em um instante de desvario, pois em matéria de violência estava mais para um hindu que sente pesar ao acidentalmente pisar em uma formiga. Penso aqui estritamente na forma diversa e imprevisível em que reagia a provocações e, especialmente, no que concebia sobre o peso imenso da subjetividade combinada com a indiferença quando a vida passa a ficar desprovida de sentido
“Quando se perde o sentido da vida, que é algo do momento, navega-se no absurdo em uma ruptura com a própria existência”, dizia. Eu era muito jovem e não sabia que ali o meu primeiro mentor sintetizou a inovação literária que Camus promoveu filosoficamente ao abordar a personagem central de sua narrativa do absurdo.
Neste capítulo a abordagem segue de forma ainda mais provocante. Na perspectiva de réu, Meursault assistia ao promotor e ao advogado de defesa que falavam mais sobre ele e menos do que crime que cometera (p. 144). Entendo que Camus trabalhou o comportamento do réu em um plano de absurdo também no sentido de provocar o vazio da racionalidade tendenciosa do advogado e do promotor, além de desconcertar o presidente do júri.
Como metáfora sobre o julgamento que se torna passional, pensei que em vez de se buscar uma melhor avaliação da objetividade de um determinado fato, tenta-se abordar subjetivamente quem os cometeu, e quando o comportamento de quem cometera se revela complexo demais além dos clichês e estereótipos, então o juízo se perde por completo na medida em que se torna mais contundente e ideológico.
Meursault não se arrepende do crime, reconhece que o promotor tem razão, mesmo com a paixão contundente com que lhe acusava, mas se mostrou um tanto ponderado ao ouvir sobre não ter alma, “nem um único dos princípios morais que protege o coração dos homens” (p. 147), de ser “monstruoso” (p. 149). O promotor explora a frieza e a indiferença de Meursault no velório da própria mãe, e até parece que o julgamento se dá mais por isso e não pelo assassinato, enquanto o insólito réu, cansado, no final queria mesmo é voltar para a cela e dormir (p. 152), e assim nada declara em saber que sua cabeça será cortada em praça pública “em nome do povo francês” (p. 154).
554. 23/05/2024 22h16
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