Imagem: Thich Nhat Hanh Foundation

Thich Nhat Hanh

“[…] medite em suas percepções. Como Buda comentou: ‘A pessoa que mais sofre nesse mundo é aquela que tem muitas percepções distorcidas, e a maioria de nossas percepções são errôneas’.”

Obra: Sem lama não há lótus. Práticas para ser feliz. 5. Metta. Vozes, 2016, Petrópolis. De Thich Nhat Hanh (Vietnã/Hué, 1926-2022).

Eis o tipo de questão que é sempre melhor começar a investigar em si mesmo. Recentemente fiz o exercício de anotar algumas percepções que tive para avaliar se estavam corretas ou não.

Escolhi quatro áreas bem distintas: (1) programação, (2) administração, (3) comportamento humano e (4) economia.

A área 1 envolvia questões de causas e efeitos de procedimentos em um sistema que estou implantando nos clientes.

A área 2 tratou de registrar o que entendi sobre decisões administrativas tomadas por determinados clientes.

A área 3 abordou a interpretação que dei sobre o comportamento de alguns colaboradores envolvidos na área 1.

A área 4 registrou minhas expectativas sobre decisões do governo federal em relação ao aumento do petróleo no mercado internacional.

Repeti algumas vezes o exercício e o resultado de minhas conclusões foram:

52% erradas, 26% inconclusivas e 22% corretas. A classificação “inconclusiva considera o que não foi possível de atestar, até o momento, se acertei ou não.

Pelo menos no meu caso, refleti, Buda tem razão.

As distorções de percepção são dominantes, pensei, quando tratadas apenas pelo que Daniel Kahneman define em Rápido e devagar: duas formas de pensar [555], como sistema 1, de pensamento rápido, intuitivo, diria automático, onde se aplicam juízos por heurística, quando se faz analogia breve de um problema com outro considerado similar, e então se abdica de usar o sistema 2, pautado por pensamento lento, atencioso, mais concentrado, moderado, de depuração, baseado em análises complexas.

Há algum tempo fui entendendo que ter opinião é algo irrelevante e evitável.

Pensei no ano passado quando um proprietário de um escritório de contabilidade me disse que minha opinião “seria muito importante”, e então precisei decepcioná-lo ao informar que desconhecia dados mínimos necessários para avaliar o problema apresentado e que dar uma opinião seria não somente inútil, como potencialmente desastroso. Quanto mais opinião dou, entendo, maior a probabilidade de cometer erros. Envidar-se a entender as pessoas e os fenômenos é o que importa, sem necessidade de chegar a alguma conclusão que seja impreterível.

Então vi que a sabedoria de Buda me levou a Mateus 7:1.

“Não julgueis, para que não sejais julgados”.

Por quê?, meditei…

A capacidade do juízo humano é ridicularmente limitada. O conhecimento está disperso. Quando uma pessoa apresenta um determinado comportamento, é possível identificar e mensurar objetivamente o que se materializa, mas o que está em sua psique é uma atividade muito mais delicada, importante, que pode mudar a compreensão de suas reais motivações, se houve ou não boa fé… Em seguida pensei sobre o fato de que as poucas variáveis que possam ser conhecidas sobre o comportamento de uma pessoa ou as causas de um fenômeno, revelam um campo minado de ilusões, engodos, e mais distorções e assim, deve-se caminhar sempre com muita cautela para não provocar mais sofrimento pela injusta acusação ou pela conclusão infundada.

Mas a sociedade ficaria no caos sem juízo competente, pensei, para as relações em geral, algo que deve ser feito por pessoas muito bem preparadas e dispostas a carregar seu peso enorme. No entanto, continuei, o mundo em que vivo é deveras apressado na promoção de julgamentos sumários e nada mais icônico que o temido “tribunal da internet” e dos especialistas em dar palpite para quase tudo, muitos conhecidos pela nova “profissão” que surgiu nas redes sociais: influencer.

Pensei em seguida no que me contou um colega, estudioso das novas tendências em TI, acerca da recente moda de se criar narrativas falsas sobre a própria vida, produzidas por aplicativos que exploram imagens e vídeos alterados pela dita “Inteligência Artificial”, e tentei imaginar o quanto os juízos de quem vive de falar sobre a vida alheia entraram em um terreno ainda mais sombrio, onde nem a extinta inteligência soviética da KGB, tampouco sua arque-rival CIA, à época da Guerra Fria, super especialistas em produzir contra informação para induzir à percepção errônea, poderiam construir.

Depois pensei em situações menos tecnológicas, mais rudimentares, onde simplesmente na surdina se encontra mórbido prazer em falar mal da vida alheia e o quanto essa conduta revela muito mais sobre quem promove esse tipo de atividade, do que acerca da pessoa objeto do julgamento, não raramente feito à revelia e/ou carregado de distorções e imprecisões.

Fiquei empolgado com a experiência de contabilizar meus erros de percepção e decidi anotar algumas que ouvi a envolver possíveis causas de um determinado problema profissional comum que vem atingindo os interlocutores.

E aconteceu mais uma obviedade nelson-rodrigueana-ululante: Buda acertou, novamente.

Notei que as conclusões, na maioria dos casos, foram acompanhadas de um juízo contundente acerca de quem é a culpa, das supostas responsabilidades. Só escutei um “não sei”, o que me deixou animado, porque faço parte desse time. Para a maioria não agradou então quando decidi pronunciar a frase que o mestre Thich Nhat Hanh recomenda escrever “numa folha de papel, de uma forma bem bonita” (p. 110):

Você tem certeza?

Quem pode ter certeza?, pensei. E novamente voltei a Jesus em Mateus 7.1, quando então encontrei uma síntese dessa sabedoria:

É cômodo e tentador ficar no lugar comum de dar opinião, julgar e concluir, muitas vezes por impulso. É salutar para a alma adotar o silêncio para cultivar o hábito de meditar sobre as próprias percepções e identificar distorções, evitando assim sofrimento a si mesmo e a quem é objeto de conclusões precipitadas, enquanto se aprimora a busca por uma melhor compreensão das pessoas e do mundo.

555. 28/03/2024 22h06

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