Imagem: Other Press

Raja Shehadeh 

“[…] Ao contrário de Jerusalém, Nablus e Hebron, Ramallah teve sorte, entre as cidades da Cisjordânia, ao escapar de qualquer menção na Bíblia. […]”

Obra: Caminhos Palestinos. 2. O Caso Albina. Record, 2009, Rio de Janeiro. Tradução de Palestinian Walks. De Raja Shehadeh (Ramallah, 1952).

Obra belíssima, para vários registros.

Caminhos Palestinos se relevou extraordinário, com um toque pessoal que me deixou perplexo, muito pensativo, a discorrer sobre a dura realidade dos nativos não judeus, marginalizados e violados no processo de consolidação do Estado de Israel.

O livro promove um mergulho em uma região a qual me interesso por leituras desde os anos 1990, quando na graduação em economia passei a estudá-la, inicialmente sob a temática da influência dos Estados Unidos nos conflitos.

Raja Shehadeh, atuando como advogado, neste capítulo fala sobre as dificuldades na falta de transparência do Departamento de Registro de Terras, considerado um órgão “civil”, cujos arquivos são controlados pelo governo militar israelense (p. 66). Narra as belezas da topografia, colinas, montanhas, rios, e conta sobre a constante preocupação dos conterrâneos com a seca, a escassez de água e o significado das chuvas que podem ter formado gerações de ansiosos e temperamentais (p. 68). Conta como nas cortes militares, o nash, cardos que provavelmente foram usados para fazer a coroa de espinhos de Cristo (p. 78), foi usado politicamente para fazer apologia pela ocupação israelense sob a alegação de serem terras não cultivadas (p. 79).

No trecho (p. 72), sobre Ramallah, nas suas origens, era um povoado “novo-rico”, “sem significado histórico ou religioso” (p. 72), assim define no mesmo parágrafo o escritor e advogado palestino, fundador da não-partidária Al Haq, referência internacional em direitos humanos.

Por que a omissão bíblica de Ramallah é tão importante para Raja Shehadeh?

Tem muito a ver com a busca do significado histórico da região sobre a Israel antiga, promovida inicialmente na Europa e em seguida pelo movimento sionista, e acrescento o rude lobby evangélico estadunidense, onde narrativas, muitas associadas a Bíblia, são instrumentalizadas para dar aparência de legitimidade e prioridade, quando não de exclusividade judaica, em detrimento dos palestinos, onde cidades bíblicas ficam no foco, o que não acontece com Ramallah. Por isso afirma o autor: Como me alegro com essa omissão” (p. 72).

O autor menciona que na cidade onde nasceu há assentamentos judaicos, localizados na periferia, mas sem o “terror espalhado por fanáticos fundamentalistas” que reivindicam que ela pertence a seus ancestrais bíblicos (p. 72). Neste ponto, lembra de como na política pró-sionista o fundamentalismo religioso pode ser útil no apelo às escrituras bíblicas, penso, para explorar uma distorção comum sobre fatos históricos. O sionismo, ao tomar proveito do fundamentalismo bíblico, tenta induzir desavisados à crença de que os palestinos fazem parte de algo menor, que o protagonismo na região pertence a Israel, e assim povos não associados a linhagem judaica, que estão na Palestina há mais tempo e em volume populacional superior, são apresentados como se fossem apenas da “pré-história” (p. 72) da região, como lembra o autor.

A leitura deste livro passa uma constante sensação de que se está caminhando pela Palestina ao lado do autor, com a vida enraizada e o coração aberto para contar suas experiências na multidão dos que sofrem com o aparato israelense.

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