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Albert Camus

“A única maneira de juntar as pessoas ainda é mandar-lhes a peste.”

Obra: A Peste. 4. Record, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Valerie Rumjanek Cardoso. De Albert Camus (Argélia/Dréan, 1913-1960).

Sob o domínio da peste, Orã se arrastava no cansaço indigesto dos que cuidavam dos pacientes, nas casas de quarentena e sob a indiferença com o sofrimento (p. 256-257). Dr. Rieux sentia a sensibilidade lhe escapar [556], o que alimentava o efeito mais nocivo da fadiga: a negligência (p. 262), em procedimentos que bem conhecia. O médico mergulhado na anestesia de um novo normal, passou a residir no acaso (p. 263).

A união que veio pela peste, no flagelo que se transformou em um problema de todos (p. 252), denuncia banalidades cultivadas no cotidiano, nas conversas de Cottard, abastado e nem um pouco esgotado em sua mórbida forma de se ocupar ao ver o drama alheio, e Tarrou, que o informava e o acolhia em uma insólita compreensão, em meio à angústia e à perturbação de quem teve a rotina quebrada e agora precisa caminhar por um sentido comum.

Ao menos, enquanto as coisas não melhoram, todos ficam no mesmo barco (p. 264), acuados no terror que se impõe pela sensação de que a qualquer momento a vida e a liberdade podem ser destruídas (p. 269), paradoxalmente desprovidos do poder do amor, onde se exige um pouco de futuro quando então se passou apenas a pensar nos instantes; tudo se tornara presente (p. 249), de forma gradualmente cruel, como no tratamento do menino (p. 288-294), com o doutor que nada sente senão a própria revolta, indo além do que poderia compreender, enquanto escutara de Paneloux que “devemos amar o que não conseguimos compreender” (p. 296), o que não o conformou ao se deparar com a tortura que assistia, sobretudo nas crianças (p 297).

A Peste de Camus é uma metáfora sobre a união de uma dor coletiva que vai além dos limites da razão e desafia o que se entende por amor. Dos que se apegam a fé religiosa, aos que gemem na descrença confessada que se liga por uma fé que possuem na vida, tudo no meio do caos e do profundo sofrimento.

556. 31/10/2025 22h36

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