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“Tens aqui a paixão e a sepultura dele. ‘No terceiro dia… dos mortos’. Tens aqui também a ressurreição dele. ‘Subiu… está sentado à direita do Pai’. Vês, portanto, que a carne em nada pode diminuir a divindade; ao contrário, pela encarnação Cristo conseguiu um grande triunfo.”
Obra: Ambrósio de Milão. Patrística. Explicação do Símbolo. Paulus, 1996, São Paulo. Tradução de Célia Mariana Franchi Fernandes da Silva. Introdução e notas explicativas Roque Frangiotti. De Ambrósio de Milão (Tréveris, 339-397).
A fé não é inimiga da razão.
A fé recorre à razão mas não se limita a ela. Da razão se pode estender à ciência.
A primeira frase pode ser um convite para o diálogo. A segunda, não raramente é usada como armadilha.
A grande discussão que vivenciei nos tempos de seminarista foi sobre a Ressureição de Cristo. De um lado, leituras de viés fundamentalista, do outro, um espectro do que pode ser chamado genericamente de “liberal”. Para quem enxerga as coisas de forma binária, são inconciliáveis.
Fundamentalistas tentam “provar” a ressureição de Cristo. Liberais procuram explicá-la em termos metafóricos. Quando deixei o seminário (2007), a crença na Ressureição ficou intacta, mas ainda sim era visto como “liberal” por gente que parecia querer tutelar a minha fé. O problema é que eu não quis fazer parte de nenhum dos grupinhos, que funcionam como torcidas organizadas, adestradas pelo entretenimento.
O fundamentalismo e o liberalismo se revelaram para mim filhos de um mesmo pai: a presunção humana com a razão. Fundamentalistas fazem uso aparente dela, sempre baseados em textos canônicos onde a prova gira em torno de si mesma enquanto nada prova, e liberais também recorrem a um aparente instrumental da razão quando apontam algum sentido “plausível” que normalmente nega a Ressureição literal em favor de uma ressureição figurada e simbólica, dentro de aspectos até sociológicos.
Hoje entendo que fundamentalistas e liberais no universo cristão, cada qual a seu jeito, embarram nos limites da razão, pois o que querem provar, mediante o instrumental humano racional, não tem como alcançar resultados satisfatórios em termos concretos.
Não compete à ciência, nem à razão. É pela fé, que veio da tradição, onde a Bíblia está inserida.
Conversando com um ateu confesso, outrora crente antes de entrar no seminário, escutei: “para rever meus conceitos ateísticos, somente mesmo com uma prova”. Juntamo-nos então a um grupo de fundamentalistas para um conversa, e quando fui perguntado sobre o que pensava da Ressureição de Cristo, a resposta dada, “creio pela fé”, desagradou não apenas o meu colega ateu, o que era óbvio, mas também, para minha surpresa na ocasião, alguns do grupo fundamentalista, pois esperavam “conteúdo” por notarem que não utilizei qualquer combinação de textos bíblicos para “provar” minha afirmação.
É simplesmente pela fé que acompanha o amor por Cristo, pensei. E neste domingo pascal, lembrei-me de algumas palavras do bispo de Milão, Ambrósio, que orientou os primeiros passos do então catecúmeno Agostinho, filho de dona Mônica, que passou a ser venerada em 1153. O jovem que tinha abandonado o maniqueísmo e um estilo de vida hedonista, tendo sido mais tarde o grande nome da Patrística como bispo de Hipona, imaginei, certamente ouviu este trecho da explicação do símbolo (5) dada por Ambrósio, o que me remete a pura e simples fé na unidade em amor por Cristo:
“Escuta, homem. Deves, portanto, crer nisso logo. A própria fé brota da caridade. Quem ama nada retira. O amigo que ama seu amigo nada tira dele. Quem ama o Senhor, com maior razão nada deve tirar dele.”
E diria, quem ama Cristo não tira dele o testemunho da fé em sua Ressureição.
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