Imagem: Luciana Amorim

Stephen Hanselman
“[…] Estreite sua mente e você se tornará intolerante. [..]”
Obra: Diário Estoico. 366 lições sobre sabedoria, perseverança e a arte de viver. 1 de abril. A cor de seus pensamentos. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.
Eis o que mais temor tenho quanto ao meu envelhecimento.
Abre-se com uma citação (5.I6) de Meditações, de Marco Aurélio:
“Tua mente tomará a forma do que a habita com mais frequência, pois o espírito humano é colorido por tais impressões.”
Uma autópsia ou uma radiografia pode indicar a um médico como uma pessoa ganhou a vida, se passou a vida muito tempo sentada… Uma postura arqueada será refletida no estado da coluna vertebral. Da mesma forma que o corpo revela o que predomina na vida de quem nele vive, a mente é moldada pelos pensamentos de quem por ela pensou.
A predominância de pensamentos negativos, raivosos ou depreciativos transforma a mente em um dispositivo tóxico onde as coisas passam a ser vistas sempre pelo ponto de vista nocivo, pessimista ou negativo.
A mente quando se estreita em pensamentos dogmáticos que não permitem o contraditório, a autocrítica, a dúvida pelo espírito crítico, tornar-se-á intolerante (p. 133), advertem os autores. Aqui penso no que que aprendi em meios evangélicos fundamentalistas e em grupos políticos, sejam de direita ou de esquerda, ambos moldados por dogmatismos onde os membros estão regidos por uma forma de pensar que os impede de um diálogo capaz de possibilitar um autêntico aprendizado sobre o mundo.
Uma mente ocupada por pensamentos que produzem linguagem violenta ou vulgar, devotada à verbalização de preconceitos, de coisas obscenas, prendada ao cultivo do ódio, indisposta ao diálogo franco, honesto, dominada por agressividade e recalque, produzirá uma vida pelo mesmo tom de quem a possui.
A reflexão estoica me fez rememorar esta Leitura [557]:
“[…] pensei no que me dissera um interlocutor de sabedoria budista que sugeriu a um amigo, que o procurou para tratar seus excessos de fúria, e perguntou sobre o que aconteceria se ele pudesse “materializar sua raiva” , entenda-se esculpir seus pensamentos, desejos… Sem entender bem qual seria o sentido da questão, ficou reflexivo quando o amigo budista indagou se ele colocaria as esculturas para decorar a sala de sua casa, se seriam belas e inspiradoras para ele mesmo e os visitantes contemplarem, ou se caberiam melhor de serem escondidas, talvez mais úteis em um filme de terror”
Qual é a cor de seus pensamentos? – eis o que também pensei sobre esta reflexão, quando recentemente decidi deixá-la à meditação de quem alcançou a sétima década de vida e passou por um tempo propagando mensagens com teor misógino, enaltecendo um determinado político, até conseguir ser premiado com um bloqueio no WhatsApp.
Pensei também sobre uma ocorrência em 2010 quando decidi me desligar de um cliente considerado de alto rendimento financeiro, após avaliar o quanto de toxidade à saúde mental se emitia no seu ambiente de trabalho; pela agressividade na forma com que seus colaboradores interagiam entre si e solicitavam serviços, algo que refletia o espírito dito “combativo” da direção. Os colaboradores pareciam “bem” adaptados à linguagem extremamente vulgar que prevalecia onde vale a hipérbole de que em cada 10 palavras que pronunciavam, 9 eram palavrões.
557. 05/01/2026 08h00
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