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Nietzsche

“O que vê o abismo, mas com olhos de águia; o que se prende ao abismo com garras de águia: é este o valoroso”.

Obra: Assim Falou Zaratustra. Quarta Parte. O homem superior. IV. Martin Claret, 2003, São Paulo. Tradução de Alex Marins. De Friedrich Wilhelm Nietzsche (Reino da Prússia/Röcken, 1844-1900).

18/08/2000 – Não sabia, mas seria o meu último encontro com o meu mentor da juventude, ZW [602]; foi ocasional, na biblioteca. Ele partiria dois meses depois [603] e deixou um vazio que jamais pode ser preenchido. Não há um dia sequer que não pense nele.

Quando revisitei esta obra por esta edição, registrei a data daquele encontro ocorrido três anos antes (p. 218). Lembrei-me naquela mesa do tempo em que, ao me ver como um entusiasta nietzschiano, quando nos conhecemos lá em 1994, e sobretudo após conversarmos sobre um artigo que publiquei no ano seguinte, em um grupo de BBS, durante uma experiência científica inusitada que dividiria minha história, trabalho entre alunos e professores universitários, ele pontuou uma questão que me ajudou a demarcar uma fronteira com a filosofia do Übermensch, sem me afastar em relação do que meditaria até até hoje: o amor fati.

Alertou-me sobre os problemas do relativismo em si mesmo na transmutação dos valores em Nietzsche e suas conexões com a releitura do filósofo de um conceito estoico sobre o destino enquanto, concomitantemente, mostrou-me um caminho a desbravar para que eu encontrasse uma melhor perspectiva sobre o que tanto refletia:

– Ame profundamente o contraditório no limite da consciência ética; será viável assim estar na beira do abismo para evoluir até o último suspiro.

Amar o contraditório no limite da consciência ética me permitiu reler a ideia do Übermensch de forma mais realista, ainda como ideal de evolução, e calibrar o que tinha meditado sobre o fati.

Antes, penso, Nietzsche parece ter sido contagiado pelo espírito utilitário e evolucionista no final do século XIX para inserir sua crítica sobre os valores tradicionais apontando um vazio existencial, quando a nossa espécie ensaiava de forma grotesca um novo ciclo de culto ao progresso: enquanto o humano da massa preservava a crença religiosa, ficava cada vez mais sob uma caricatura do que afirmava acreditar, e assim o filosofo do martelo profetizou como consequência a mais completa destituição de seus valores no mundo da vida, na prática, em especial na esfera cristã, que fora, entendo, sua ferida paternal; seria o fim de algo que ele preferiu designar como “morte de Deus” (p. 217).

Hoje penso nesse “vazio” que Nietzsche filosofou, essencialmente ser o mesmo que caracteriza o meu tempo de “avanços” e exacerbação de uma religiosidade ainda mais pragmática e débil, coisas que potencializam muito mais a percepção que enaltece a pobreza intelectual induzida de usar o próprio pensamento em favor de futilidades que iludem o ser humano pela abdicação do mergulho do próprio ser, cada vez mais sob uma máscara e uma fantasia. Vejo isso pela imensa dependência de aparatos para se apresentar na sociedade e produzir conteúdo, algo que promove uma ideia de progresso que é na verdade um nivelamento por baixo e passa uma falsa sensação de evolução enquanto conserva o que o filósofo viu como o maior perigo: Deus (p. 218), entendo, seu vazio interior disfarçado no que afirma acreditar exteriormente.

Ortega y Gasset desenvolveu o conceito de “homem-massa” que se aproxima relativamente desse “vazio”; esse homem médio não é necessariamente um indivíduo materialmente pobre; é um tanto elitizado em sua carência de desenvolvimento da própria sofisticação, enquanto conserva suas crenças, cada vez mais utilitaristas em um deus que é confundido com sua prosperidade econômica. Trata-se de uma era de inanição espiritual e intelectual, de padronização tecnológica muito mais poderosa sobre tudo e todos, tornando a espécie sapiens reduzida a um controle social que a torna distante da busca pelo Übermensch. Nesse sentido, entendo, Nietzsche foi um idealista e também moralista por se manifestar como uma voz que clamou no deserto da mesmice para os que almejam se transformar no tal “homem valoroso” que aponta na obra. Raro então será o desbravador da terra, capaz de desenvolver um senso de moral liberto da velha ordem viciada em mitos.

Onde estará o ser destemido de si mesmo enquanto não perdido em sua coragem de evoluir? Sua pregação foi para pouquíssimos, visando uma busca radical à beira dos riscos de caminhar na beira do abismo em prol do que entendeu sobre a concepção do Übermensch.

603. 29/11/2024 23h16

604. Subitamente, por um AVC.

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