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“Para Samuel, aquela peregrinação dolorosa era inevitável. Ao subir no trem do Kindertransport, suas raízes tinham sido cortadas […]”
Obra: O Vento Sabe Meu Nome. Mister Bogart. Bertrand Brasil, 2025, Rio de Janeiro. Tradução de Ivone Benedetti. De Isabel Allende Llona (Peru/Lima, 1942).
Na medida em que vai percebendo que faz parte de uma geração de muitos que se foram (p. 178), Samuel Adler remonta ao seu passado mítico e dramático a partir da separação que sofrera no Kindertransport, dor que certamente lhe poupou a vida naqueles dias de antissemitismo exacerbado, violento, mortal. A ferida da separação dos pais está em contrapartida com uma chance melhor de sobreviver a esse mundo de terror provocado pelo nazismo. Eis uma história de dor imensa de uma criança e seus pais, enquanto necessária ao livramento.
Neste capítulo, sigo o passo da romancista e dou um salto no tempo. Do menino violinista refugiado na Segunda Guerra ao senhor viúvo octogenário em tempos de pandemia de coronavírus e que vive flashes da infância perdida nas lágrimas de Leticia, na menina Anita de oito anos que vive um drama que lhe é familiar (p. 181) e o inspira a convencer sua amiga a ajudá-la (p. 182), além de tudo o mais que toca seu coração tão experimentado. Samuel é um personagem muito sensível construído por Allende. Ele faz viagens no tempo das memórias fragmentadas para viver sua humanidade, denotada na forma de sentimentos por afetos e imagens dispersas, onde não consegue se lembrar do pai e imagina o que fora sua família, mesmo tão distante, mediante sua concreta realidade no atravessar das décadas, além do desejo de desbravar o desconhecido de si mesmo pela sua própria história de vida.
A menina Anita, acolhida pelo “casal” que compartilha o mesmo teto, está para o Samuel menino do trem. Assim o velho dividira sua história na figura da pequenina refugiada (p. 187). O homem bem vivido se encanta com Anita enquanto sente em suas recordações, o significado de ficar à espera de quem não virá. Aquele ambiente de regressão devolveu ao senhor Samuel a vontade de viver (p. 190) por um espírito de compaixão, amor, altruísmo, experimentado ao longo dos anos, cuja sabedoria lhe dizia: tudo passa em alusão ao pandêmico que confluía com sua calma perene e senso de que a menina lhe traria inspiração, isso em relação ao espectro da demência (p.192) em seu realismo consigo mesmo, dando-lhe uma forma de esperança até então não vivida (p. 194).
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