Imagem: El Español

Umberto Eco

“[…] dopo aver visto tante cose nel vasto mondo, quei lunghi giorni passati nel buio lo avevano riappacificato con se stesso. […]”

Obra: Baudolino. 27. Baudolino nelle tenebre di Abcasia. La nave di Teseo, 2020, Milano. De Umberto Eco (Itália/Alexandria, 1932-2016).

Lá está o desbravador e sentimental Baudolino, ganhando o mundo com suas histórias “cabeludas”, diria, do tipo para “boi dormir”, no entanto, longe do vulgar, da mera fantasia simplória, sem conteúdo substancial, o protagonista do professor Umberto Eco, nesta capítulo, em uma floresta mítica, escura, alfo que me remete a um cenário de Dante na narrativa da descida ao inferno, no início de La Divina Commedia.

Baudolino mergulha no tormento, mas passa então por um período de pacificação interior. Neste romance tenho um fascínio por conta da fantasia, do senso de humor refinado, do drama e da erudição acerca dos elementos de história medieval, além do “paradoxo da cegueira” que se dá na perda da visão (aqui não em termos alegóricos) quando se deixa de enfatizar nos monstros à espreita em torno da fantasia que caracteriza a narrativa.

Os causos de Baudolino me fizeram pensar (novamente) no mestre mestre Ariano Suassuna e nos icônicos João Grilo e Chicó a partir da pujante e sertaneja literatura de cordel. Imaginei que o mestre italiano construiu o protagonista no mesmo esquema, de forma que bebeu na fonte que tanto bem conheceu: o medievalismo. Cada um em estilo diferente em seus respectivos âmbitos em que foram doutos; o paraibano mais pernambucano que tenho notícia desenvolveu sua obra a partir do universo do teatro (e também foi naturalmente romancista), e o professor de Bologna se debruçou no campo do romance, enquanto me chamou a atenção a essência em comédia dramática em torno de “causos” que proporcionam uma contagiante, lúdica e cultural experiência de leitura. Em suma, entendi Baudolino como uma espécie de versão de João Grilo-Chicó de Umberto Eco. Não sei, mas é bem possível que o autor de Il nome della Rosa tenha apreciado obras de Suassuna e quem sabe se inspirado um pouco no estilo de narrativas tão “espetaculosas” (é apenas uma imaginação que tenho). Conjecturei assim após ver uma foto de sua biblioteca e ver que faz todo sentido ali constar obras do Armorial.

Além dos causos, notei de forma mais latente neste capítulo da obra, uma psicologia interessante em Baudolino como metáfora quanto à descida nessa floresta sombria. De quem muito vivera lidando cientificamente com histórias e encontrou inúmeras lacunas que sabe, ficarão insondáveis, inexplicáveis, pensei então em uma alegoria da relação do próprio Umberto Eco professor erudito com dilemas reais do medievalismo, e o quanto talvez tenha transportado isso para o personagem, e faço essa interpretação aqui na linha do conceito do próprio autor, em termos de “obra aberta”, ao se deparar com sua trajetória de notável estudioso.

E após longos dias na “escuridão” que vincula ao personagem nelle tenebre di Abcasia, Baudolino, sujeito que levou toda a vida inventando mentiras, ao passar por uma introspecção em seu ostracismo, no meio de tanta conversa ilusória, vive um desfecho interessante. Novamente, em termos metafóricos, penso naquela parada que todo intelectual precisa fazer diante das próprias limitações, da imensidão de coisas que tratou e, sobretudo, das que não pode finalizar ou esclarecer.

Eis uma descontração em forma de entretenimento pessoal, para assim encontrar, quem sabe, inspirado no personagem, “paz consigo mesmo”, como definiu no trecho (p. 729) desta Leitura. Falo em “entretenimento pessoal” porque em cada página de Baudolino eu pensei sobre o quanto Umberto Eco deve ter se divertido fazendo esse romance.

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