Imagem: S Metal

“[…] Como tivemos pessoas rezando para pneus, doando dinheiro suado para Bolsonaro e depredando prédios públicos para causar caos ?[…]”
Obra: O Pobre de Direita. A vingança dos bastardos. Conclusão. O vingador dos bastardos Civilização Brasileira, 2024, Rio de Janeiro. De Jessé José Freire de Souza (Brasil/Rio de Grande Norte/Natal, 1960).
Torno a esta obra que se revelou interessante em relação ao que pude aprender na experiência de leitura. O sociólogo Jessé de Souza de imediato acrescenta:
“Como e por que temos, agora na psique individual, a ‘paixão’ cega e desmedida por alguém como Bolsonaro?”
Eis a questão. O que o sociólogo Jessé de Souza indaga neste trecho (p. 206), o mesmo fiz entre 2016 e 2018 ao perceber o fanatismo em torno do então deputado Bolsonaro. Lembrei-me também de outras perguntas de mesma categoria, ao longo de minha vida de leitor, em relação ao que observei em professores (a maioria alinhados com partidos de esquerda) um tanto simpáticos, para usar de eufemismo, a regimes socialistas que se tornaram inevitavelmente autoritários, personificados em tipos como Josef Stalin, Fidel Castro, Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Recordei-me também de um raríssimo professor de direita que sinalizava, muito discretamente, uma curiosa amenização e, e alguns momentos, enaltecia Augusto Pinochet.
Jessé de Souza menciona a obra Psicologia das massas e análise do eu, de Sigmund Freud, para abordar o tema sob a perspectiva da “identificação” no Complexo de Édipo (p. 206) na relação das massas com a figura do líder, com a primeira substituída pela segunda quanto ao respectivo senso de moralidade sob normas sociais (superego). Argumenta o professor que o integrante mais vulnerável da massa de seguidores é aquele cuja distância é pequena entre a racionalidade mediadora (ego) e o superego, condição onde se revela a manutenção da autossatisfação narcísica infantil (p. 207), quando então o autor reproduz de Freud:
“Nesse caso, basta que o líder incorpore algumas das características típicas destes indivíduos de forma aguda para ‘hipnotizá-los’.”
Em termos, o superego é substituído pelo líder ocasionando em “uma reversão e regressão da dimensão moral e cognitiva individual” (p. 208). Penso, de fato, não é preciso fazer esforço para ver como é comum, em um bolsonarista mais ferrenho, a paixão impossibilitando uma conversa minimamente produtiva, adulta, racional, em favor de uma infantil centralização dos argumentos na veneração ao líder, ocorrendo o mesmo com o típico lulista, contudo, pensei novamente, o mesmo ocorre em alguns professores universitários que conheci; em ambos os tipos a racionalidade dá lugar ao mesmo tipo de infantilidade no juízo.
Isso faço para reler o fenômeno do fanatismo. Penso aqui no sentido de ir além da camada popular, que normalmente tem exclusividade para explicar tal radicalismo, em típicas abordagens de indivíduos vistos como mais esclarecidos. Lembrei-me em seguida do que vi em uma visita a um diretório acadêmico na primeira metade dos anos 1990: chamou-me atenção a intensa paixão ideológica, sob alusão a políticos e não somente a ideias, em alguns alunos de linha progressista/socialista ou comunista. Por ser indiferente com o que estava em evidência com aquela militância, senti-me cobrado na ocasião; o ambiente era policiado. Além do viés ideológico radical que impedia o debate sério, por conciliar estudos em duas instituições com o trabalho que exigia muitas viagens, aquele meio logo defini como desinteressante e até um tanto violento. Importava-me mais o que poderia me dispor de conhecimento e boas relações com pessoas da universidade que filtrei, incluindo professores, professoras, e excluindo o diretório e os bares, ambientes preferidos por estudantes com “consciência social” que me pareciam mais hipnotizados no campus (a tomar por empréstimo o conceito em Freud) do que qualquer outra coisa, quando tratavam sobre política.
Comentário