Imagem: Vaticano

Papa Francesco

“Mais de sessenta países criminalizam homossexuais e transexuais, uma dezena até com pena de morte. Mas a homossexualidade não é um crime, é um fato humano; […]”

Obra: Papa Francisco: Esperança. A Autobiografia. 18 Todos fora e todos dentro. Fontanar, 2025, São Paulo. Tradução de Frederico Carotti, Iara Machado Pinheiro e Karina Jannini. De Papa Francesco, Franciscus (2013-2025), Jorge Mario Bergoglio (Argentina/Buenos Aires, 1936-2025), com Carlo Musso.

E completa em sua autobiografia: “a Igreja, portanto, e os cristãos não podem permanecer alheios a essa injustiça criminosa nem se comportar com covardia” (p. 247).

Francesco foi o papa que marcou minhas visitas ao Vaticano e mais me influenciou neste longo caminho que tomei para voltar ao catolicismo. Talvez surpreenda a posição do pontífice tomada em relação à homossexualidade, no entanto, lá pelos idos de 2005 eu era um seminarista protestante que tinha interesse em saber de atividades da Igreja Católica na América Latina, e o nome Bergoglio, então cardeal argentino, surgiu de imediato: jesuíta com uma curiosa teologia da “humildade de Deus”, a qual aplicava em sua vida evitando certas comodidades clericais, homem de viés franciscano, acolhedor com homossexuais (p. 247), promotor de um amplo diálogo, do interreligioso ao social, a pregar o respeito às diferenças. Lendo suas homilias percebi uma pastoral bíblica evangélica muito interessante, bem temperada com princípios apostólicos e uma orientação de serviço social baseado na caridade, no voluntariado, dentro da doutrina clássica da Igreja, ou seja, uma pauta social sem os traços ideológicos marxistas tão controvertidos da teologia da libertação.  Foi neste tempo que comecei a admirá-lo.

Então, as afirmações de Bergoglio que destaco a seguir em sua autobiografia, refletem uma visão que para mim nada surpreende, a qual tenho comunhão:

“Essas pessoas não são filhas de um deus menor; Deus pai as ama com o mesmo amor incondicional, ama-as como são e as acompanha do mesmo modo como faz com cada um de nós: com proximidade, misericórdia e ternura”.

[…]

“Se o senhor fala a todos, quem sou eu para excluir alguém?”

[…]

“E se alguns experimentaram na própria pele a ‘rejeição da Igreja’, eu gostaria que soubessem que se tratou, antes, da rejeição por parte de uma “pessoa” na Igreja: porque a Igreja é uma mãe que convoca todos os seus filhos.”

A citação que Francesco faz do belíssimo filme Um dia muito especial, com Marcelo Mastroiani e Sophia Loren, retratando a sociedade nazifascista do Eixo onde os dois são forçados a uma reclusão por conta de uma visita de Hitler a Mussolini em Roma, cuja hipocrisia exalta ditadores e empresários que exploram as pessoas e se escandaliza “quando o papa abençoou uma mulher divorciada ou um homossexual” (p. 249).

Uma hipocrisia que segue bem viva em nosso tempo, e aqui penso primeiro no que o papa menciona sobre os pecados mais graves, não sendo os sexuais, que suscitam mais indignação (p. 248), e sim entre os que se mostram mais “angelicais”, ou seja, “que se revestem de outra aparência: a arrogância, o ódio a mentira, a fraude, a prepotência”, citando a Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo 11, verso 14 (p. 249). Tal hipocrisia tive que lidar durante meu tempo de batista, onde conheci lideranças que tinham prazer em recitar Gênesis 19:5, Levítico 18:22, Levítico 20:13 e o mais badalado: Romanos 1:26-27. No entanto, em meio a uma áurea de santidade, quando surgia um caso de adultério, sobretudo entre pastores, abdicavam do microfone, saiam dos holofotes, tratavam na surdina e até falavam em “misericórdia” e “compaixão”.

Um caso específico me veio em mente: em 2002 conheci um senhor septuagenário que gostava de conversar comigo sobre teologia após as aulas na Escola Bíblica a qual eu era professor da classe adulta, dos homens. Na minha despedida (estava retornando para a igreja de origem), ele pediu uma reunião privada no gabinete pastoral. Eu tinha uma boa ideia do que se tratava: o seu neto. Apesar de termos conversado bastante durante um pouco mais de um ano, o espirituoso senhor se mostrou muito embaraçado, quando então completei o que parecia difícil para ele finalizar: “seu neto (tinha 19 anos) descobriu que é homossexual e lhe contou. Conversei com ele que decidiu, para não expor a família, deixar de frequentar a igreja. Sugeri que congregasse em uma igreja em Olinda que estava ficando conhecida por acolher gays e lésbicas”. Ele ficou um pouco aliviado com o meu resumo e então seguimos à parte mais importante da conversa quando vi a imagem daquele senhor, homem empreendedor do ramo da construção civil, simpático, bem humorado, muito seguro quando fazia o uso da palavra e com quase 40 anos de história na confissão, desmoronando-se, de maneira que ficou marcada em minhas memórias; ele estava apavorado ao pensar que cedo ou tarde todos descobririam, quando perguntou o que tinha feito para sofrer um “castigo tão horrível”.

Não se deve esperar reação diferente de quem passara tanto tempo sob uma doutrina que define a homossexualidade pelo adjetivo que utilizou. Quando revelei minha posição, ele ficou chocado, diria, desapontado. Perguntou se eu sou gay, respondi que não, mas que sempre vi a homossexualidade como algo humano, normal, sem escândalo, expliquei, e essa concepção foi se aprimorando durante a juventude. Quando adolescente, no ginásio, eu era considerado gay por ter proximidade com um colega visto como “efeminado”. Na faculdade tive um colega judeu que depois ficou à vontade para me contar sobre a decisão de revelar sua homossexualidade aos pais, ortodoxos. No seminário teológico tive uma colega lésbica que trabalhava como seminarista para a mesma igreja que tinha indicado ao neto do meu interlocutor; ela me contou sobre os assédios que sofria na instituição seminarial, cometidos por futuros pastores (se bem que seminário não forma pastor, e sim a igreja local).

Quando me tornei batista tinha a ingenuidade de considerar que minha visão sobre a homossexualidade não seria um problema tão difícil de tratar internamente nas igrejas, pois eu tinha a imagem do crente norte-americano, mais liberal, dos Clinton ou do tipo de pastor que vi chegando dos Estados Unidos tomando umas cervejas, descontraído, escutando “músicas do mundo”, apreciando artes em geral, e por isso achava que haveria algum espaço para tratar seriamente desse tema, mas foi um grande engano de minha parte. A regra foi o preconceito em ambientes religiosos evangélicos que frequentei, e as raríssimas exceções foram ilhas de sobreviventes estigmatizados em busca do amor cristão. Um tempo passou e percebi que eu deveria tomar muito cuidado para não cair em polêmicas inúteis dentro de uma confissão enrijecida por leituras fundamentalistas travestidas de devocionais. O neto do empresário tinha visto um caso recente na mesma comunidade, de uma jovem que foi convidada a deixar o grupo de louvor, e se afastar das demais atividades, após assumir um namoro com uma colega de faculdade; ele não queria passar pela mesma situação.

Torno à autobiografia de Bergoglio, e para concluir, a menção que faz da Fiducia supplicans [624] a explicar que o documento versa sobre o acolhimento, e não o relativismo, nem mudança de doutrina, para ratificar que todos na Igreja são convidados, incluindo divorciados, homossexuais e transexuais, quando então registra (p. 246):

“Na primeira vez que um grupo de transexuais visitou o Vaticano, partiu chorando, comovido, porque eu lhes dera a mão, um beijo… Como se eu tivesse feito algo excepcional. mas são filhos de Deus!

Bergoglio me fascinou no tempo seminarial aos meus 31 anos, e Francesco foi a sua continuação na forma de um papa extraordinário para a Igreja em um tempo que precisou lidar com vários extremismos. O seu sucessor, Leão XIV, com suas peculiaridades, segue na mesma essência.

624. 31/12/2023 09h33

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