Imagem: Al Jazeera

Francesca Albanese

“Já temos muito monstros entre nós. Acima de tudo, a nossa indiferença.”

Obra: Quando o Mundo Dorme. Histórias, palavras e feridas da Palestina. Conclusão. O vício da esperança. Tabla, 2026, Rio de Janeiro. Tradução de Cláudia Tavares Alves. De Francesca Paola Albanese (Italia/Avelino/Ariano Irpino, 1977).

A indiferença é uma chaga na Questão Palestina. Aos 19 anos ela fazia parte de minha visão romântica sobre Israel que começou a desmoronar quando conheci um colega judeu, na graduação em economia [623]. Depois conheci outros judeus não sionistas com a mesma criticidade em relação ao que o sionismo e o Estado de Israel vêm cometendo com os palestinos, e quando vejo nos dias atuais o predomínio da indiferença, apesar de considerar que avanços ocorreram, penso no quanto o problema está distante de ser superado.

Quem se envolve politicamente com o problema, imagino, deve experimentar uma carga intensa de indignação, e neste ponto vejo o porquê da jurista italiana citar (p.226) Paz é cada passo, pequeno grande livro de um autor que me é muito caro: o monge vietnamita Thich Nhat Hanh 1926–2022. A professora confessa que estava com os “nervos à folha da pele” (p. 226) quando se deparou com o livro na estante de seu marido e que expõe uma sabedoria oriental de viver o que se prega. Se eu prego paz, necessito vivê-la em mim cotidianamente; preciso ser a mudança que desejo despertar no mundo (p. 227). Não adiantará o desejo de melhorar o mundo se não consigo sequer aplicar em mim valores que propago como solução. Tratar sobre a Questão Palestina sob esse ensinamento, assim como qualquer conflito que descambe à violência, entendo, é essencial para não se cair em radicalismo e escalar o que carece de ser conciliado.

Diplomacia, diálogo, miltilateralismo… A falta dessas práticas tem evidenciado outro monstro não menos perigoso que o versado na abertura (p. 225) do capítulo: o extremismo, penso aqui em comentário pessoal, seja de direita, protagonizado com maior destaque nas figuras do atual presidente dos Estados Unidos e do atual primeiro-ministro israelense, seja por grupos de esquerda que denunciam a verdade do genocídio promovido pelo Estado de Israel, mas fazem vista grossa às barbaridades feitas por organizações terroristas que não toleram a existência de Israel. Isso posto, acredito que um dos efeitos de viver o que se prega, especialmente em relação à paz no conflito da Palestina, consiste na libertação de paixões ideológicas de todos os lados. Somente com a paz reinando no coração de cada pessoa que atua por cada parte, será possível o que a autora menciona como reconhecimento da humanidade do outro (p.218), além de direitos e obrigações que cabem em cada um e, principalmente, a erradicação da violência nos processos de negociação e reparação às vítimas que têm sede de justiça, e não de vingança, no desejo de se viver em paz com amor pela vida, e não baseado em ódio, como bem explicou (p. 299) o professor Wasim Dahmash, professor ítalo-palestino de história, em relação ao espírito da maioria do povo palestino.

Da mesma forma que ter a paz dentro de si, por meio de atitudes, é necessário para propagá-la com autenticidade, o mesmo consiste em se nutrir de esperança, adotando-a como postura em “um vício bom do qual não se pode mais abrir mão” (p. 230), encerra assim a autora pedindo que cada leitor aja pela Palestina sendo luz em cada canto do planeta.

A Palestina, entendo, merece pertencer a todos que nela desejam viver em paz.

623. 08/08/2026 16h00

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