Imagem: Jornal Opção

“Nos seus últimos tempos, Carpeaux dava sinais de depressão , já não escondia a amargura, a suspeita que sua vida fora, de algum modo, desperdiçada.[…]”
Obra: Ensaios Reunidos. Introdução a um exame de consciência, por Olavo de Carvalho. Topbooks/UniverCidade, 1999, Rio de Janeiro. De Otto Maria Carpeaux (Áustria/Viena, 1900-1978).
A primeira vez que ouvi falar de Otto Maria Carpeaux, pseudônimo (p. 75) de Otto Karpfen (p. 74) foi em 1995 [627], por meu mentor que o concebia como autor de elevada referência para melhor compreensão do conceito de intelectual. À época meu mentor falava sobre a banalização do uso do termo no Brasil e desde então passei a ver Carpeaux como um modelo.
Nesta apresentação de Olavo de Carvalho, há um oportuno resumo da vida do austríaco mais brasileiro que tenho notícia. Eis uma bela história de vida, de quem fora exilado de Viena por causa das perseguições antissemitas do nazismo. Otto Karpfen fugiu para a Antuérpia (1938) e veio parar no Brasil (1939), dominou rapidamente a língua portuguesa e em meio a inúmeras dificuldades produziu uma vastidão de ensaios e críticas sobre literatura, naturalizou-se brasileiro. Atuando em editoriais, tomou posição muito crítica sobre o governo de João Goulart, acusando-o de levar o país à anarquia e depois mostrou sua independência de forma corajosa como denunciante das arbitrariedades dos militares a partir dos eventos de 1964 no início do regime (p. 40). Carpeaux e Carlos Heitor Cony foram os articuladores que destoaram da subserviência ao golpe em uma época em que muito se aplaudia (inclusive na imprensa) um mal que somente fora percebido mais adiante quando os sinais de endurecimento se tornaram óbvios.
Carpeaux foi um exímio liberal no sentido pleno do termo. Defini-lo ideologicamente é tarefa hercúlea. Ensaios Reunidos tem três volumes e se destina aos que amam o conhecimento, a cultura, a erudição e o espírito enciclopédico de um abnegado amante da sabedoria. Merece um lugar de destaque em toda biblioteca do lar. Pessoalmente é uma fonte de inspiração para me desbravar em novas experiências de leitura.
Sobre os sintomas de depressão (p. 44) e esgotamento (p. 68) de Carpeaux em seus últimos dias, o tema do intelectual que não escapa desse tipo de problema sempre me foi atraente. Não se trata aqui de considerar uma linha de generalização, a envolver a bruta ideia de que uma vida feliz está mais entre os que não sabem e não querem desenvolver a intelectualidade, pois assim supostamente haveria na preservação da própria ignorância uma forma de se evitar o que os considerados “cultos demais” buscam, e que no final, diante de tantos questionamentos, têm um destino de estado melancólico dentro de si na medida em que enfrentam dilemas em contradições perturbadoras da vida.
A depressão é democrática, um fato da vida que pode alcançar religiosos, irreligiosos, intelectuais e anti-intelectuais. Lembrei-me de um pastor pentecostal que conheci em 2006: ele tinha certa repugnância à intelectualidade, afirmava que saber a cultura do mundo é caminho para perdição, pregava um tipo de teologia da prosperidade onde doenças eram sinais de “vida em pecado” e compartilhava a crença de que ficar deprimido é simplesmente “falta de Deus”, até que, infelizmente, sua esposa faleceu por uma neoplasia maligna. Sua fé desabou quando caiu em si sobre as contradições entre o que pregava e a dura realidade. Entrou em anedonia, não conseguia mais ir ao púlpito, pediu licença e evoluiu para um quadro depressivo. Vi outras pessoas bastante religiosas com aversão à intelectualidade que também experimentaram tristeza profunda e se revoltaram contra Deus quando o sistema de crenças que seguiam não lhes deu respostas satisfatórias sobre o trágico e o sofrimento extremo que estavam passando.
Por outro lado, penso em intelectuais, crentes ou ateus, que terminaram a trajetória terrena sem amargura, realizados em muitos sentidos, deixando algum legado e distantes de uma vida reduzida à dependência química ou ao suicídio. Por essas considerações, entendo hoje a intelectualidade pela erudição sendo parte de um conjunto que define a humanidade na busca de sua evolução, enquanto insuficiente à realização existencial. Acredito em outra intelectualidade que completa a primeira e diz respeito à espiritualidade onde o amor ao conhecimento tem um sentido abrangente que versa a busca de uma harmonia com a vida que não carece de reconhecimentos, honrarias e outras coisas que servem à ostentação e ao orgulho. Estar entre essas duas intelectualidades para mim é que pode ajudar no propósito de lidar melhor com os sofrimentos da vida, propondo um espírito de humildade e disposição ao aprendizado contínuo de maneira que não paute apenas em seus próprios dilemas, na aptidão para contemplar e se envolver com a sublime e graciosa presença do bem, pelas experiências de amor e ternura.
627. 17/01/2026 16h00
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