Imagem: Summus

Klecius Borges

“[…] busca uma compreensão mais profunda das questões particulares dessa população […]”

Obra: Terapia afirmativa. Uma introdução à psicologia e à psicoterapia dirigida a gays, lésbicas e bissexuais. 1. Por que uma psicologia homossexual? GLS, 2019, São Paulo. De Klecius Borges.

A proposta da terapia afirmativa em relação ao trecho (p. 20) desta Leitura, em termos teóricos de psicologia, não considera o indivíduo homossexual diferente do heterossexual, pois cairia em contradição ao propor uma linha de abordagem a depender da ideia da homossexualidade como um problema em si, além de que por psicologia homossexual se deve abranger bissexuais e transgêneros.

A psicologia homossexual surgiu nos Estados Unidos em “reação ao heterocentrismo da psicologia dominante”, algo que predominava até meados dos anos 1970 a considerar como manifestação patológica a homossexualidade. O heteroocentrismo na psicologia estava baseado em estudos de alcance questionável da população envolvida (p. 17), com técnicas descritas sucintamente pelo autor as quais, entendi, desumanas, voltadas à inibição do desejo homossexual mediante o propósito de restauração da heterossexualidade (p. 18).

O que hoje pode ser chamado vulgarmente de tratamento para “cura gay” ficou na metade dos anos 1970 na psicologia, que se enveredou por um caminho de ver a homossexualidade como um fato da existência humana, tendo um marco no posicionamento da American Psychological Association contrário ao que até então era considerado como prejuízo mental per si (p. 19), no entanto, o que fora superado continua sendo visto como problema de ordem mental em outros ambientes. Quanto trabalhei no meio religioso evangélico protestante (2000-2007) observei frequentemente uma inclinação à “conversão” atrelada a uma ideia de “libertação” da homossexualidade, doutrinariamente tratada como um problema espiritual. Naqueles anos, ao visitar igrejas no interior e na Região Metropolitana do Recife, descobri que a expressão “filho doente” poderia se relacionar à homossexualidade.

Aprendi que o teor doutrinário de um sistema de crenças não se limita apenas a manifestação de uma declaração de fé ou uma ideologia ensinada; é também um fenômeno endógeno do indivíduo dentre de suas crenças sobre o mundo e os juízos que exerce sobre o comportamento dos outros, reflexo de valores intrínsecos. No meio religioso há uma combinação poderosa de sistema doutrinário na crença de que se está baseado na “palavra de Deus” e os esquemas internos de crenças pessoais que fluem ao que chamo de “marketing do pecado”, onde a homossexualidade se encerra em uma camada que não possibilita discussão. Questioná-lo significa desafiar não apenas quem está a frente da igreja, do grupo ou da família, mas o corpo inteiro corpo de seguidores que reage por automatismo e não raramente de forma intolerante, até mesmo agressiva, de maneira que ter uma visão distinta do coletivo provoca um choque onde muitos declinam na crosta do dogmatismo.

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