Imagem: Renovatio Imperii

“[…] “O maior obstáculo para a vida é a expectativa, que depende do amanhã e do desperdício de hoje. Você dispõe daquilo que está nas mãos da Fortuna, você solta aquilo que está na sua. Para onde você olha? A qual objetivo você almeja? Todas as coisas que ainda estão por vir estão na incerteza; viva o agora!”
Obra: Sobre a Brevidade da Vida. I. IX. Montecristo, 2018, São Paulo. Tradução e notas de Alexandre Pires Vieira. De Lúcio Aneu Séneca (Império Romano/Espanha/Córdoba, 5-65).
Sobre a brevidade da vida – por pastor Abdoral
Do alto da montanha li Amor fati cristão… Só é possível experimentá-lo quando se está livre de expectativa. Quando não se tem futuro, nem se apela ao passado. Sobre o porvir:
“Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.” (Mateus. 6:25)
Viver o agora… Amar a vida independente das circunstâncias, dar graças como as coisas “boas” ou “ruins” se apresentam. Lembrei-me da confissão do meu amigo de infância, criador deste blog, quando inspirado no “Em tudo dai graças” (Tessalonicenses 5:18), decidiu incluir em sua lista de agradecimentos, tudo que não tinha dado certo recentemente naquela ocasião de sua vida, e após concluir a oração, ganhou os olhos esbugalhados dos homens da sala da Escola Bíblica.
– É a primeira vez que escutei uma oração assim… – disseram-lhe.
Fora um tanto estranho mesmo, mas… Quem poderá se candidatar a tal empreendimento na alma?
Quem se dispõe ao rompimento total com o que imaginamos frequentemente sobre o que pode acontecer, muitas vezes sem nos darmos conta que não existe além dos nossos pensamentos?
Quem terá a audácia de desmantelar as próprias conjecturas que disfarçam ilusões, preconceitos e fugas de si mesmo?
O “pensar no futuro”, vetor primaz de ansiedade, é uma coisas mais inúteis que fazemos inadvertidamente. Ora amigos, se é preciso nos libertarmos do futuro para melhor aproveitarmos a vida sem a toxina do anseio, também é necessário não vivermos para o passado mediante o cultivo de uma serenidade libertadora dos fatos, sem cairmos em saudosismo, para não esquecermos que o passado – não raramente – é uma colcha de lampejos de memórias dispersas que interpretamos sem precisão, muitas vezes por recalques e sentimentalismos.
A brevidade da vida em Sêneca se evidencia quando se percebe alguma maturidade, sempre aquém do que uma plenitude poderia proporcionar, mas então chega a hora de partir, de “morrer” e então no pouco tempo que nos resta, vivemos mais do que no tempo maior que nos ocupamos com o que menos importa. E afirma o filósofo: “nascemos para um breve período da vida” (I.1). Esse “breve período” não significa um curto período; não se trata do tempo diminuto, mas do desperdício dele (I.3). A vida não é breve per si, mas o que é feito dela a torna sob uma sensação efêmera que encobre uma prodigalidade em nossas distrações, dispersões e futilidades da mesma forma que “uma riqueza grandiosa é esbanjada no momento em que chega às mãos de um mau dono” (I.4), como ilustra o filósofo.
Avareza insaciável, ganância, devoção a banalidades, obsessões, vícios… são coisas que devem ser meditadas antes de escondermos nossas próprias debilidades quando nos queixamos da natureza por simplesmente ser o que é (II. 1). Aqui penso na imensidão de coisas que não podem ser controladas e surgem para desnudar nossa pequenez, quando não nossa arrogância, mas também carecemos de denunciar o quanto nossas preocupações com o incontrolável é uma maneira de tornar o viver à brevidade.
A brevidade da vida então se define com o que fazemos com a nossa psiquê.
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