Imagem: O Observador

“In Arabia the Old Testament law of an eye for an eye, a tooth for a tooth, a life for a lie, still holds good, and compliated feuds drag on for centuries. […]”
Obra: With Lawrence in Arabia. Chapter VVII. An eye for an eye, and a tooth for a tooth. Sixteenth Editons. HUTCHINSON & CO. (Publishers), LTD, London. De Lowell Jackson Thomas (EUA/Ohio/Woodington, 1892-1981).
Aplicada na teologia do Antigo Testamento, rejeitada nos ditos de Jesus Cristo (Mt. 5. 38-42). “Olho por olho, dente por dente”, sentença que nos dias atuais é comumente entendida como incivilizada, na antiguidade era uma forma de evitar excessos por servir de base a um senso de proporção.
Não apenas na antiguidade, nesta obra sobre a trajetória do coronel inglês Thomas Edward Lawrence (UK/Wales/Tremadog, 1888-1935), a sentença bíblica de vingança perdura na Arábia. Lawrence foi uma figura muito curiosa e minha primeira referência dele se deu quando finalmente pude assistir pela primeira vez (2000) ao extraordinário filme Lawrence da Arábia (1962) que, apesar das licenças poéticas, essencialmente conta um feito impressionante: a articulação de um militar britânico em favor da união de tribos na Arábia para combater o Império Turco Otomano, no contexto da Primeira Guerra Mundial.
Volto-me à cultura baseada na chamada “Lei do Talião”, um dos elementos desafiadores para Lawrence pois um conflito entre integrantes de tribos em torno da retribuição ou da vingança poderia resultar em um sério entrave dada sua intenção de uni-las. O lendário coronel atuou como uma espécie de “infiltrado” sob imagem de um mero observador do aparato britânico, mas seu estilo sagaz conseguiu conquistar a atenção do Emir Feisal, líder que se tornou chave na relação com representantes da política do Reino Unido na construção de acordos entre líderes tribais para tornar viável a ofensiva contra os turcos, aliados dos alemães na Primeira Guerra.
Há uma peculiaridade do direito não escrito entre árabes que versa sobre o “olho por olho, dente por dente”, e diz respeito a não fazer distinção entre homicídio culposo acidental e intencional. Se matou, terá que receber uma pena proporcional ou conseguir um acordo. Um assassino raramente conseguia escapar da pena de morte; é “quase impossível”, explica o autor, evitar de ser encontrado por parentes da vítima em algum lugar no deserto e assim se tenta sobreviver como um habitante da cidade. Neste ponto, por isso na cultura beduína se considera residentes em aldeias e cidades como inferiores. Um caso registrado nesta obra se refere ao guarda-costas de Lawrence que, durante um ataque escalou a janela de uma estação ferroviária e ao tentar abrir a porta com tiros, acabou matando acidentalmente um homem que havia entrado pela janela. Há o costume entre tribos de que o homicida possa evitar a pena de morte pagando uma indenização, caso os parentes da vítima estejam dispostos a aceitar. No caso, colegas do guarda-costas arrecadaram entre si a quantia de 100 libras e enviaram aos parentes que aceitaram em troca de sua vida (p. 157-158).
“São um dos poucos povos do mundo que os romanos não conseguiram conquistar”, afirma (p. 160) o que fora correspondente na guerra, caracterizada muitas vezes pelo combate de guerrilha, neutralizando linhas férreas com explosivos para saquear trens. Lawrence distribuía bens, dinheiro e armamento para conquistar a adesão não apenas de membros de tribos nômades, mas também de árabes de cidades e aldeias, os menos confiáveis na perspectiva beduína. Em suma, essa união até então improvável se tornou possível levando em conta as muitas diferenças e os diversos interesses de grupos empregando métodos de engajamento adaptados às circunstâncias (p. 159).
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