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“Eu quero lutar com a minha caneta. Eu lutaria através da força, com uma arma, mas assim teria que matar outras pessoas. Não quero fazer isso, mesmo que não sejam pessoas boas. Elas não precisam ser mortas, precisam aprender a tornarem-se humanas. […]”

Obra: Mulheres de Cabul. Marina 1997. Geração Editorial, 2006, São Paulo. Tradução de Celeste Marcondes. De Harriet Logan.

Antes da chegada do Taleban ao poder, a foto de três jovens caminhando (anos 1970) – saias acima dos joelhos -, confunde-se com as de qualquer país ocidental a ilustrar o profundo contraste com o que seria imposto pelo regime a partir de 1997.

Alguns dos decretos reproduzidos pela autora deixam bem claro o nível de misoginia do Talibã. Em Cabul, Marina foi intérprete da autora deste livro que chocou quem se importa com o sofrimento de quem vive sob tirania e terror governamental no âmbito extremista islâmico. A proibição para estudar a deixou deprimida e após um conflito familiar, quando tentou ficar no Paquistão para concluir os estudos, de volta ao Afeganistão, tentou o suicídio (p. 19).

Da história de Marina vou à de Jamila que afirma: “Nossa vida era melhor durante o regime comunista da década de 1980. Podíamos trabalhar e estudar. Podíamos ir à qualquer lugar” (p. 13). Aqui penso no contexto da Guerra Fria, na luta de rebeldes mujahidin treinados em modo de guerrilha, doutrinados sob extremismo islâmico contra os soviéticos. Os mujahidin recebiam suporte financeiro dado pelos Estados Unidos com a Casa Branca desejando a Moscou um “Vietnã”.  Entre os militantes desses grupos estava a base do que seria a Al Qaeda onde recebia treinamento um jovem chamado Osama bin Laden. Neste sentido há uma trágica ironia; parte da formação de combate e inteligência de bin Laden foi bancada com dinheiro de impostos pagos por cidadãos americanos [642]. Lembrei-me também do filme Rambo III que romantizou os mujahidin em uma narrativa alienante típica da indústria de Hollywood, fazendo-os parecer como indivíduos não extremistas que lutavam por uma causa nobre enquanto ajudavam o personagem que fantasia a imagem infantilizada do herói de guerra no imbecil coletivo americano.

A saída da União Soviética (fevereiro/1989) deixou aberto no Afeganistão um caminho para que outra forma de poder, ainda mais autoritária, por ser baseada em concepção radical de teocracia, ocupasse o vácuo. Entre grupos que travavam combates pelo controle do território estavam jovens estudantes islâmicos, também doutrinados em extremismo, que formariam o Talibã durante a guerra civil que se instalou no país. Nesse processo, prevaleceu o Talibã na maioria do território, incluindo Cabul, sendo este o contexto em que Jamila conta a “situação miserável” em que vivia à época. Sua história se liga a de Fersitta, indignada por não poder mais trabalhar, estudar, maquiar-se, nem conversar publicamente, vivendo constantemente sob vigilância e ameaça de punição severa.

O Afeganistão no pós-queda de Moscou sendo palco de conflitos entre grupos de mujahedins e o Talibã, deixou a população civil aterrorizada. Quando Osama bin Laden foi caçado pelos americanos por conta do 11 de Setembro de 2001, e o Talibã associado à proteção do terrorista, finalmente caiu, e dois terços do Afeganistão que estavam sob seu controle passou gradualmente a uma abertura que beneficiou as mulheres afegãs. As histórias de Shafika (p. 24), Roya (p. 30) e Sovita (p. 41), cuja escola no pós-Talibã passou a funcionar legalmente, são relatos que ilustram bem essa transição, mas também há o curioso depoimento de Fahrida que discorda que o Talibã seja mau (p. 21), mediante sua perspectiva em torno de uma experiência em que aos 14 anos de idade foi a única a sobreviver – perdendo uma perna – devido a um ataque dos mujahedins que combatiam contra o Talibã.

642. 10/03/2022 23h12. No livro Bin Laden: O Homem que Declarou Guerra à América, Bodansky conta a história do suprote financeiro dos Estados Unidos a grupos armados de militantes islâmicos (mujadins) que depois se voltariam contra seus aliados americanos. Em certo sentido, parte da culpa do que aconteceu com as mulheres afegãs na chegada ao Talibã ao poder, tem a ver com a influência dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria.

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