Imagem: Fronteiras do Pensamento

“Nem psiquiatra nem sexólogo, Freud rejeitava todas as formas de nomenclaturas. […]”
Obra: Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Segunda Parte. 2. Discípulos e dissidentes. Zahar, 2016, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Elisabeth Roudinesco (France/Paris, 1944).
Freud estava construindo algo muito estranho, inusitado, alguns diriam exótico, outros, depravado, enquanto em seu ciclo de discípulos se tratava de ser “a maior revolução do século XX” (p. 143). Fato é que teoria e prática eram inovadoras, estavam muito além de definições em rótulos. Eis a psicanálise, uma doutrina que angariou devotos e despertou a ira de muitos; uma nova e provocante linha de pensamento que “jamais foi reduzida por seu inventor a uma abordagem clínica da psique” (p. 135), aqui penso na abordagem inicial da autora.
Eu tinha muito desprezo pelos conceitos de Freud que foram trabalhados nas primeiras sessões de psicanálise que passei em 1997. Fui um estudante de economia que desenvolveu um incomum interesse por psicologia nas duas cadeiras que compunham a grade na graduação, a ponto de receber uma orientação da professora psicóloga para pensar seriamente em trocar de curso. Por isso, entre 1995 e 1996, cheguei a frequentar algumas aulas na turma de graduação de psicologia.
Nesse contexto, meu psi teve que ser muito paciente com aquele jovem um tanto irritante, questionador em excesso a pensar que entendia de psicanálise sem ter passado por uma. É “determinista”, “neurotizante”, “obsessiva por sexo”, passiva de muitas ressalvas, costumava alegar, mas dois anos depois passei a vê-la de uma forma um pouco amistosa quando me tornei entusiasta da tarefa que me foi incumbida: a reconstrução de meu histórico de vida a partir de fatos de minha infância que eu carecia de ressignificá-los, o que me levou a outras abordagens com o mesmo psi na forma de psicoterapia.
Hoje penso em Freud como um tipo de “homem absurdo” [643] de Camus no sentido de que tentar defini-lo por síntese tão-somente levará a grande equívoco. Penso aqui também a respeito do que a biógrafa aponta sobre o mundo de Freud não pertencer ao espectro normativo da psiquiatria (p. 156). Assim, quanto mais leio sobre Freud mais me surpreendo pois dada a erudição e complexidade de suas obras, em meio a ponderações e incompreensões que me cercam, o pai da psicanálise se confunde com o espírito do amor à leitura.
643. 12/08/2026 21h30
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