Imagem: The Georgetown Institute for the Study of Markets and Ethics

[…] we saw that most democratic citizens are hobbits or hooligans. Voters are for the most part ignorant, irrational, and
misinformed, but nice. […]
Obra: Against Democracy. Chapter 7. Is democracy competent? Princeton University Press, 2016, Princeton. De Jason F. Brennan (1979).
Em uma sociedade onde a democracia é uma espécie de divindade intocável em espíritos regidos por paixões ideológicas, esta obra fica sujeita ao anátema.
O filósofo americano é categórico ao abordar a questão que abre o capítulo, suscitando o que apresentou nos capítulos 2 e 3 da obra:
“[…] observamos que em uma democracia a maioria dos cidadãos são “hobbits” ou “hooligans”. Os eleitores são, em sua maioria, ignorantes, irracionais e mal informados — embora sejam legais (nem tanto, penso). Ainda que votem naquilo que percebem como sendo o interesse nacional, a interpretação mais direta das evidências sugere que os eleitores, em uma visão geral, são incompetentes. Eles apoiam políticas ruins (ou políticos que defendem políticas ruins) — algo que não fariam se estivessem mais bem informados e tratassem essas informações por uma via racional” (p. 172).
Durante a experiência de leitura tracei paralelos com as obras Democracia, o Deus que Falhou [676], de Hans-Hermann Hoppe, e O Caminho da Servidão [677], de F. A. Hayek, especialmente no capítulo X, onde o problema da ignorância do eleitor/apoiador também é abordado no sentido da democracia ser um instrumento para abrir o caminho a um regime totalitário, dentro do contexto da explicação sobre por que os piores chegam ao poder, enquanto no livro de Hoppe, a crítica à democracia é apresentada em uma maior amplitude acerca dos seus efeitos na sociedade e na economia.
A analogia com os “hooligans”, o primeiro tipo apontado, fez-me lembrar de uma situação recente nesse tempo de ânimos exaltados no processo eleitoral. Eu não esperava que às 05h20 da manhã, enquanto finalizava um aquecimento para um treino de corrida em uma praça, pudesse encontrar três “hooligans” um tanto contundentes, todos na terceira idade, um senhor bolsonarista e duas senhoras lulistas. A proximidade com o banco da praça onde as duas senhoras estavam conversando sobre a antecipação do programa Bolsa-Família não me poupou de ter escutado o comentário provocante do bolsonarista: “bolsa-vagabundo”. Foi o estopim para o que no bom pernambuquês uma das senhoras reagisse lhe dando um tradicional “bale” iniciando um bate-boca intenso enquanto eu me afastava para apreciar os quilômetros que me cabem. Pensei também em um pastor de uma confissão evangélica que comentou comigo esta semana acerca da decisão “drástica” que precisou tomar: restringir publicações no grupo do WhatsApp da igreja aos administradores após uma quase interminável discussão entre membros da ala bolsonarista (a maior) e da ala lulista da comunidade. En passant, é curioso observar que no meio evangélico, aparentemente, os hooligans bolsonaristas são mais “expressivos” que os lulistas, para usar de um eufemismo. O espírito rixoso de “hooligan” também ficou explícito em um cliente que me contou a triste situação entre um pai bolsonarista e uma filha lulista de sua família após uma discussão em torno da eleição: terminou no rompimento total da relação entre os dois.
Quanto aos “hobbits”, conversando com alguns preocupados com os nervos a flor da pele, percebi que evitam falar de política até mesmo na intimidade do ambiente doméstico. Um caso me chamou atenção: a conversão de um “hooligan” e um “hobbit”
– Minha esposa é bolsonarista e eu voto em Lula desde 1989 – disse-me e completou com uma voz tranquila – depois que tivemos uma briga feia em 2022 por causa de política, decidi não conversar mais a respeito disso com ela, nem com os nossos filhos, também divididos. Depois percebi que o mesmo precisava ser feito fora de casa. Eu não discuto mais, Deus me livre, tem muita gente agressiva, eu quero paz e apenas vou às urnas para registar o meu 13.
Torno à obra de Brennan que oferece ao leitor uma análise sobre a “competência” da democracia. O autor menciona um conjunto de argumentos em favor da tomada de decisão democrática com base em três teoremas matemáticos (p. 173): o teorema do milagre da agregação a considerar que havendo erros em uma democracia de grande escala, estando distribuídos aleatoriamente, então, desde que exista uma minoria de eleitores bem informados, uma democracia composta quase inteiramente por eleitores desinformados terá um desempenho — em termos epistêmicos — tão bom quanto uma democracia composta inteiramente por eleitores bem informados. O segundo teorema é o júri de Condorcet que considera o condicional de eleitores independentes e caso o eleitor médio esteja suficientemente motivado e tiver uma probabilidade maior de acertar do que de errar, então, à medida que uma democracia cresce, a probabilidade de que o corpo de eleitores chegue à resposta correta aproxima-se, e finalmente o terceiro teorema é o de Hong-Page que versa acerca de, em condições adequadas, a diversidade cognitiva entre os participantes de um processo de tomada de decisão coletiva contribui mais para que esse processo produza resultados corretos do que o aumento da confiabilidade ou da habilidade individual dos participantes.
O capítulo é bem minucioso sendo, à mon avis, o melhor do livro, e destaco o que lembra o filósofo que muitos dos argumentos epistêmicos em defesa da democracia são a priori, enquanto que as críticas negativas são a posteriori, derivando-se da observação empírica (p. 174) onde se alega que, na prática, “democracias reais cometem erros sistemáticos” (p. 175). Aqui penso no tradicional conflito entre idealização e realidade. Defesas da democracia tendem a ser uma espécie de romantização de conceitos igualitaristas enquanto contestações costumam se basear no que acontece no mundo real. Teorias em favor da democracia que recorrem a aleatoriedade encontram dificuldades para lidar com o fato de que “eleitores desinformados não apenas possuem preferências políticas sistematizadas – em vez de aleatórias -, mas também apresentam vieses sistemáticos. Exemplo, a tendência para escolher candidatos mais atraentes em detrimento dos menos atraentes, ou a votar em nomes que lhes soam “certos” em vez de “errados”. Além disso, devido ao efeito Dunning-Kruger, cidadãos politicamente incompetentes são sistematicamente incapazes de identificar quem é mais competente do que eles. Eles não conseguem identificar os candidatos políticos mais competentes, tampouco sabem a quais especialistas recorrer em busca de orientação” (p. 177).
Por fim, para ler e aprender algo com esta obra é preciso estar desarmado de determinadas crenças, caso contrário restará tão-somente o espírito de “hooligan” que molda o que aponto na abertura deste registro de leitura.
676. 05/02/2022 20h02
677. 22/02/2022 23h30