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Rainer Maria Rilke

“[…] e mais inexprimíveis que tudo são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura enquanto a nossa passa.”

Obra: Cartas a um jovem poeta. Paris, 17 de fevereiro de 1903. Antofágica, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Erlon José Paschoal. Ilustrado por Manon Bourgeade. De René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke (Tchéquia/Praga, 1875-1926).

Escutei pela primeira vez o nome Rainer Maria Rilke através de um diretor de um grupo de teatro na Conde da Boa Vista [678]. A experiência daquela tarde de sábado – lá pelos idos finais de 1995 -, marcada pela exibição do filme Casablanca (1942), ajudou-me a amadurecer um pouco minha visão infantil sobre o que significa produzir uma obra de arte.

Na carta assinada em 17/02/1903 em Paris, que faz parte de uma coletânea organizada nesta obra, o poeta austríaco responde a um senhor que não conhecia pessoalmente (p. 23) e que lhe enviara versos para uma apreciação, mas se exime de emitir crítica; pois “nada pode atingir tão pouco uma obra de arte” (p. 19) quanto ao juízo de quem se dispõe a fazê-la, argumenta, e assim encerra o parágrafo com o trecho em destaque.

Sobre a indagação do consulente – se seus versos são “bons”-, Rainer Maria Rilke sugere que ele repense a pergunta; em vez de buscar uma perspectiva de fora (baseada na opinião alheia), seria melhor voltar-se para si (p. 20) para encontrar a resposta:

“Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo. ninguém. Só há uma única maneira. Volte-se para si. Examine as razões que o impelem a escrever; observe se elas estendem raízes no ponto mais profundo de sua alma; confesse a si mesmo mesmo se acabaria morrendo caso fosse impedido de escrever.

E sobretudo isto: pergunte-se no momento mais silencioso da noite

– Tenho necessidade de escrever?”

Tenho que voltar a uma anotação do que dissera o meu mentor dos anos 1990:

– Antes de buscar um ideal, um sonho, seja qual for, procure saber bem a natureza das coisas que te inspiram a realizá-lo. A aprovação dos outros nada significa diante disso.

Torno ao poeta austríaco que orienta acerca do “voltar-se a si mesmo” envolvendo o ficar atento ao redor, pelo recolhimento contemplativo com o mundo interior, para que perca o sentido a busca por uma visão opinativa de fora (p. 21)”. A resposta implica também na adequação da vida à necessidade de fazer arte; “uma obra de arte é boa quando surge da necessidade” (p. 22), indica, onde se carrega esse propósito “sem jamais perguntar pela recompensa” (p. 22). Não se pautar por reconhecimento se acrescenta ao viver a arte até mesmo “nos momentos mais indiferentes e insignificantes” como “um sinal e testemunho desse ímpeto” (p. 21).

É mister portanto, na visão de Rainer Maria Rilke, sentir intensamente o entorno, apreciar o cotidiano, as tristezas, os desejos, as crenças, os pensamentos passageiros, encontrando-os na beleza com “sinceridade íntima, tranquila e humilde” (p. 21). Se não é possível vivenciar isso nas coisas que o cerca, então resta reclamar de si mesmo, meditar sobre a incapacidade de ver o poético ao redor, pois “para o criador não existe pobreza ou algum lugar pobre e indiferente” (p. 21).

A intensidade dessa experiência pode resultar, talvez, na conclusão de que se deva renunciar ao que se pensou em escrever, mas a partir dessa introspecção, de qualquer modo, a vida encontrará o próprio caminho (p.22).

678. 26/12/2025 08h00

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