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“[…] Como o amor, a generosidade no sentido árabe não é calculada. É o ato de dar sem a espera do retorno. É não fazer aquilo que se espera. […]”
Obra: Caminhos Palestinos. 4. Monastérios no deserto. Uádi Dalbi. Record, 2009, Rio de Janeiro. Tradução de Palestinian Walks. De Raja Shehadeh (Ramallah, 1952).
As caminhadas que Raja Shehadeh descreve em detalhes, e em muitos trechos com um tom poético nesta obra, afloraram a minha imaginação e curiosidade pela cultura árabe. Primeiro, penso, “árabe” é um termo genérico para uma multiculturalidade a envolver um mundo de etnias, mas há um aspecto comum nessa linhagem semita que percebi em experiências de leitura: a hospitalidade.
Durante a caminhada do uádi Qelt a Jerico, o advogado e escritor palestino e seu pequeno grupo foram acolhidos por uma família árabe. “Parecíamos suficientemente estrangeiros com nossas camisas e calças jeans” (p. 175). Tentei imaginar a cena de estranhos de passagem sendo recepcionados na varanda de uma residência, com comida e chá, por uma família de uma localidade afastada de um grande centro urbano. “Tentamos dissuadi-los deste trabalho, mas foi em vão. Éramos seus convidados, e convidados devem ser tratados de forma generosa”. O chefe da família que os acolheu tem duas esposas, que serviram o pequeno grupo, conta (p. 175).
Shehadeh explica que a generosidade no contexto árabe é uma particularidade de Deus no Sagrado Alcorão, opondo-se à mesquinharia, e assim a resume no trecho em destaque (p. 175). Não se trata do oposto da penúria, nem é uma forma de esbanjar (p. 176). Os anfitriões servem aos passantes mas, por tradição, é impróprio que se juntem à mesa; devem ficar atentos às necessidades de seus convidados enquanto os acolhem (p. 177).
A história de Hatem, ensinada em escolas (p. 175), contada por Shehadeh, pode parecer difícil para quem é sensível ao trato com animais, mas ilustra bem o significado da acolhida árabe que abdica do pouco que tem para praticar a generosidade, porém, reconhece Shehadeh, às vezes essa tradição se torna prejudicial aos próprios árabes que acabam sendo enganados quando se envolvem em negociações, sobretudo em termos políticos, e sobre isso menciona o que os oficiais noruegueses fizeram ao levarem suas crianças para o ambiente em que se discutiam os termos do Acordo de Oslo, para demonstrar um espírito de confiança com os palestinos na ocasião, “como se essência do problema entre nós fosse falta de confiança, não a colonização da Palestina!”, aponta (p. 176).
Após a refeição, um dos moradores, ao saber que Shehadeh é advogado, trouxe-lhe um problema comum no cotidiano dramático de muitos palestinos desde a criação do Estado de Israel: uma notícia da Autoridade Israelense de Parques sobre a expropriação da terra onde moram; aquela família só teria mais um ano para residir naquele local, a ser transformado em reserva natural (p. 177).
Por trás de um apelo de preservação do meio-ambiente, a política israelense intensificou a desapropriação de comunidades indesejadas e que possuem uma longeva história de ligação com a terra. Palestinos são assim alijados para não se tornarem vizinhos de colonos recém-chegados e privilegiados em assentamentos promovidos pelo aparato de Israel. Não consigo encontrar outro termo para isso além de apartheid.