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“[…] pouco antes de adormecer, fiz a mim mesmo a promessa, uma mão apertando a outra […]”.
Obra: Em busca de sentido. I. Em busca de sentido. A primeira fase: recepção no campo de concentração. Vozes, 2018, Petrópolis. Tradução de Walter O. Schulupp e Carlos C. Aveline. De Viktor Emil Frankl (Áustria/Viena, 1905-1997).
A comovente promessa que Viktor Frankl fez a si mesmo – Por Leonardo Amorim
Neste ano, durante atendimentos no Zoom, em duas situações me foi suscitado o assunto “suicídio”. É um tema caríssimo para mim, pois envolve um caso em que fui atingido pessoalmente. Quem sabe um dia encontre uma oportunidade para registrá-lo neste espaço que, muitas vezes é um confessionário. Tudo tem seu kairós….
Encontrei uma forma de superar meus traumas ao longo da vida: revisitando o passado para ressignificá-lo. Foi enfrentando as memórias que pude acessar e as reinterpretando pela maturidade do autoconhecimento, que saí fortalecido com a prevalência da vida diante das dores existenciais. Destarte, quando hoje falam comigo sobre “suicídio, não há mais gatilho, não há qualquer desconforto pessoal; deixou de ser um trauma e virou uma cicatriz para marcar uma superação emocional, embora a perda sofrida seja irreparável.
Quanto aos atendimentos no Zoom, vou me restringir à segunda menção que foi puramente temática, breve, ocorrida ontem (12), feita por um cliente no final da reunião que dedico mensalmente a membros do grupo de WhatsApp da LLConsulte. Foi comentado que casos de suicídio são mais frequentes em países ricos, economicamente mais desenvolvidos, logo após eu ter dito que há coisas que o dinheiro não compra em relação aos desafios profissionais que venho enfrentando.
Sobre o tema, uma obra que marcou meu tempo de universitário foi O Suicídio [487], de Émile Durkheim (1858-1917), considerado por muitos o “pai” da sociologia moderna, em paralelo a Max Weber. O sociólogo francês encontrou correlações a indicarem o suicídio ser mais frequente em países com maior predominância de protestantes, curiosamente os mais desenvolvidos em termos econômicos.
No entanto, pensei mais profundamente nesta obra de Viktor Frankl, marcante demais em meu tempo de seminarista e que versa sob um efeito contrário do pensamento suicida ocorrido em um ambiente bem diverso: em um campo de concentração, onde um dos mais importantes neuropsiquiatras do século XX viveu o problema na pele. Lembrei-me da comovente promessa que Viktor Frankl fez a si mesmo de não se matar em Auschwitz. Diante da situação de extremo sofrimento, onde a morte estava à espreita, “era natural que quase todos pensassem em suicídio” (p. 32) e assim havia o método usual de se jogar na cerca eletrificada em alta tensão (p. 33).
E, com uma mão apertando a outra, o pai da logoterapia fez a si mesmo um pacto para não se jogar na cerca elétrica, de não “ir para o fio”, uma decisão que, segundo sua perspectiva, “não era difícil”, “não fazia muito sentido”, pois em Auschwitz, o internado se encontrava em estado de choque onde não há medo algum da morte e a câmara de gás significa poupá-lo de tirar a própria vida (p. 33).
O intelecto de Viktor Frankl passou pelo ambiente mais hostil possível, onde o estado de espírito é anormal como reação psicológica natural (p. 35), pois na medida em que a apatia avança após algumas semanas pela “mortificação dos sentimentos normais”, a situação de ” moribundos e mortos constituem uma cena tão corriqueira” que não consegue sensibilizar mais quem se encontra na posição de recluso observador (p. 37); o sofrimento extremo se banaliza.
O gesto de apertar suas mãos entre si como uma aliança eterna pela própria vida tem para mim um sentido profundo que transcende a resiliência. É um ato que sinaliza que há uma força maior, intangível, que inspira a nossa natureza humana e o poder material não pode adquirir. Esta força é a mais poderosa do universo e abre um caminho de luz para ultrapassar situações extremas da vida e anular pensamentos que ofuscam a fé e a esperança.
487. 09/07/2022 15h22
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