Imagem: ADAA

“Sobrevivência é sobre vencer na competição. Há competição entre irmãos, colegas e pretendentes sexuais. O ciúme é um reconhecimento primordial dessas ameaças. É uma estratégia que evoluiu para nos proteger.”
Obra: A cura do ciúme. Parte I. Sobre a paixão do ciúme. Um enfoque na evolução. Artmed, 2019, Porto Alegre. Tradução de Sandra Maria Mallmann da Rosa. De Robert L. Leahy (EUA/Virgínia/Alexandria, 1946).
A leitura desta obra de Leahy representa uma abordagem que se inicia por uma concepção darwinista (p. 11) sobre o ciúme.
A que tenho por mais significativa pessoalmente é filosófica, considerando o ciúme como um fenômeno do eros na ausência do ágape na relação, concepção desenvolvida a partir da conversa que tive com ZW em dezembro de 1995 [488].
O lugar comum do ciúme é o relacionamento pautado pela busca do próprio interesse em uma relação de trocas. É quando se investe “afetividade” em alguém que fica sob a obrigação de correspondê-la. Trata-se do “amor” onde se espera retorno do outro e funciona dentro de uma mentalidade de sociedade de disputa, em um ambiente de competição, onde outro/outra pode levar ou tomar quem se tem por conquistado. Então me refiro a uma mentalidade sob a crença de uma ameaça de perder o que se tem por posse do outro. Quando esse retorno não ocorre conforme a expectativa, ou seja, não apresenta sinal de fidelidade no retorno, abre-se a condição para o ciúme.
A mulher primitiva buscava no parceiro a proteção de seus filhos (p. 12). O ciúme foi uma estratégia do ser humano de tempos remotos visando proteção pela sobrevivência; para o macho provedor era matar ou morrer para garantir os meios de subsistência. Para a fêmea era pragmatismo pela proteção dos descendentes que a relação proporcionava. Associa-se então ao investimento parental. O ciúme está para a ameaça sobre o que seja de teor genético; quanto mais próximo o laço parentesco, maior a intensidade do ciúme. Considerei a questão na modernidade quanto ao ciúme repensado em famílias reconstituídas, entre filhos de pais divorciados, em meio a madrastas e padrastos que competem com enteados (p. 15), e como traços dessa herança dos primitivos ainda podem ser observados.
Pesquisas indicam que o ciúme entre homens se associa a infidelidade sexual, em relação à questão da paternidade colocada em dúvida. A maternidade é algo mais objetivo na perspectiva da mulher e o ciúme se relaciona com a aproximação emocional do parceiro com outra, que é vista como uma concorrente, uma competidora gerando o receio de perder a provisão dos recursos do macho que lhe proporciona a segurança do custeio de seus filhos. O ciúme feminino, em termos primitivos, se dava pelo temor do desvio esperado em favor de outra pessoa (p. 13).
Entre os filhos o ciúme se evidencia pela disputa por atenção dos pais e por alimentos. Nos primitivos, a “ninhada” vivia uma rivalidade na disputa por recursos escassos (p. 13), podendo ocasionar em competição entre irmãos que resultava até em morte (p. 14). Essa briga de irmãos entre primitivos também pode ser vista hoje na modernidade, penso (o autor não menciona) mediante a disputa dos espólios, as rixas pela herança que começam bem antes da morte dos pais.
O ciúme foi conservado ao longo do desenvolvimento da espécie humana; é um produto de instinto primitivo e evoluiu como paixão poderosa baseada no medo da perda e na luta pela sobrevivência. Se foi útil em tempos remotos para nossos ancestrais que pouco usavam a massa cefálica, na condição do ser humano moderno, converteu-se em potencial para destruir relacionamento. Essa evolução não o justifica, mas ajuda a compreendê-lo em termos de ser tão universal e poderoso, aponta Leahy (p. 12).
Leahy também apresenta uma abordagem histórica; o ciúme no Gênesis da Bíblia, no assassinato de Abel cometido por Caim (p. 14) e em outras literaturas. Há também o ciúme de Deus, mediante uma visão monoteísta sob uma divindade que não tolera a disputa da fé com outra. Pensei também em um pastor que tinha ciúme do púlpito da igreja; não suportava vê-lo ocupado por quem fazia melhor uso da palavra naquele pequeno espaço. Há quem sofra de ciúme de cliente quando ocorre alguma forma de contato com concorrente e também me lembrei de um contador cuja esposa tinha um ciúme suficiente para proibir a contratação de empregada para o escritório; era permitido apenas o sexo masculino no quadro.
O autor também lembra que o ciúme outrora “emblema de amor e honra”, acabou indo para a “clandestinidade”, como um indicador da insegurança, neurose, falta de autocontrole (p. 15). Eu incluo o ciúme, neste ponto, próximo da concepção que tenho, como um indicador de paixão possessiva confundida com amor. É o eros que torna o parceiro um mero objeto de prazer e um bem para ostentar; a mulher é um troféu para o homem que a “conquista”, e vice-versa.
É tênue a linha entre o sentimento de prezar por quem temos afeto ou o que desejamos preservar, e o sentimento em torno de possessão que versa à compulsão por controle do outro ou de algo para a satisfação de quem recorre ao ciúme, não tendo real importância o bem-estar de quem é alvo ou a genuína conservação daquilo que diz ter zelo. O ciúme se torna patológico por isso, não sendo derivação do amor e sim uma forma de reação ao risco de perda de quem não passa de objeto.
488. 16/11/2025 09h42
2 Replies to “18/11/2025 20h00 A cura do ciúme. Parte I. Sobre a paixão do ciúme.”